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Vascaínos de todo o Brasil, uni-vos!

Dezembro 9, 2008


“Vamos todos cantar de gozação, a cruz de malta é segunda divisão…”: satirizar o hino do Vasco da Gama foi a primeira gozação dos torcedores que desejavam vorazmente a queda do time da Colina para a segunda divisão do Brasileirão. Já fazia certo tempo que eu não era mais um torcedor fanático. Mas, imagino o desespero dos torcedores.

 

Deixei de ser lunático pelo Vasco depois que Edmundo – ora herói, ora vilão -, perdeu o pênalti decisivo na final do mundial de clubes da Fifa, em 2000, dando o título ao time que eu mais detestava, até então. Depois daquela perda lamentável e de momentos de cólera pós-jogo – não tanto quanto o torcedor que ameaçou se matar -, decidi abandonar o fanatismo pelo futebol e acompanhá-lo de forma mais fria e racional.

 

“Ex-vascaíno” – No começo foi difícil, mas até que as feridas foram cicatrizando. Falava de futebol nacional e internacional, de análises, de jogadores… E começava a ganhar algum respeito na roda de discussão. Discutia com os amigos e normalmente conseguia tirar alguns do sério. Principalmente quando começava a falar mal do time do sofre… digo torcedor.

 

Pudera. Imagine como deve ser chato alguém falar mal do seu time e você não ter como revidar porque quem falou mal está blindado com a imunidade de não torcer para nenhum clube. E o pior de tudo: sem ter um time definido, esse alguém entende bem de futebol e enche o seu saco. Pois é, era exatamente assim que eu me comportava. E modéstia a parte, de futebol entendo razoavelmente bem.

 

Então eu me tornei um diabinho para os fanáticos. Infernizava quando o time de algum amigo perdia fazendo até o pobre torcedor fanático chorar: como o meu amigo botafoguense que ficou em prantos quando o Flamengo ganhou o carioca deste ano. Não preciso dizer que ele ficou duas semanas sem falar comigo, de tanta raiva que eu fiz. Depois eu tive que consolá-lo seriamente para que ele aceitasse meus pedidos de desculpas. Eu só conseguia rir muito e contar para os outros amigos.

 

Porém, eu era visto com maus olhos: de torcedor vascaíno fanático a “chato sem alma”. “Que cara ruim. Ele é muito cruel. Não tem coração. Não tem pena de ninguém”. Eu usava qualquer camisa de time. Tenho foto com a camisa do flamengo, do Grêmio, do São Paulo e do Corinthians… “E eu ligo?” Já chegaram a me acusar de cafajeste. Quem não tem amor a um time não tem amor a ninguém. Sem falar que eu nunca mais sentiria o gostinho, a emoção, o prazer, a satisfação, a felicidade de ser campeão. Contrariando o ditado de que “É melhor sofrer por um amor com a esperança de desfrutá-lo do que não amar”, eu preferia não amar.

 

A última rodada – Confesso que acompanhei a última rodada do Brasileirão. Saí de casa, fui correndo no trabalho da minha namorada buscá-la e fui correndo pra casa dela pra acompanhar os jogos. Tudo pra não perder nenhum lance e nenhuma informação. Torci para o Flamengo perder do Atlético-PR e ficar fora da Libertadores, pro São Paulo passar pelo Goiás e ser campeão, Pro Náutico bater o Santos e se safar da degola e pro Vasco tropeçar no Vitória e cair pra Segundona. Deu tudo certo, pelo menos para mim. Mas quando o juizão deu o apito final redescobri o que é ser vascaíno. As imagens de Pedrinho chorando, de Pai Santana também em prantos, do desespero da torcida, me emocionaram. Torci pela queda não por masoquismo, ou crueldade, mas por organização e reestruturação do clube. Às vezes é preciso um remédio amargo para a cura de um mal. Às vezes se faz necessário mais do que amor para se conseguir alguma glória. Faz-se necessário a dor. E o Vasco precisa passar por uma dor como essa.

 

O Naufrágio – Dando uma breve vasculhada na internet, encontrei uma reportagem especial – o Naufrágio Vascaíno – do jornal online O Dia, do Rio de Janeiro. Encontrei alguns motivos que eu, como todo bom brasileiro de memória curta, já estava esquecido. E que foi fundamental para a tragédia de 2008. O primeiro erro: enquanto todos os times brasileiros estavam fazendo uma pré-temporada estudando suas pretensões para 2008, o Vasco estava viajando para disputar um torneio sem pé nem cabeça nos Emirados Árabes. Trocou a boa preparação e planejamento para 2008 por um punhado de dólares oriundos do petróleo. O segundo erro: manter Edmundo como cobrador oficial de pênaltis. Está mais do que provado que Edmundo não tem cabeça para uma cobrança de penalidade ou, simplesmente, não sabe cobrar.  A maioria dos gols de pênaltis feitos por Edmundo são mal cobrados. Esse ano, mais uma vez perdeu alguns no Brasileirão e perdeu um que poderia mudar a sorte do Vasco em 2008: um pênalti na semifinal contra o Sport na Copa do Brasil. O Sport chegou à final e bateu o Corinthians, tornando-se o primeiro time do Nordeste a ser campeão da Copa do Brasil.

 

Terceiro erro: A briga política. Enquanto os holofotes da imprensa e dos próprios funcionários do clube estavam voltados na eleição da presidência, o futebol ficou de lado. Com a mudança da gestão, O Vasco ficou completamente desorganizado. Na verdade, não ficou desorganizado, ficou mais transparente e democrático. Mostrou que o clube já vinha afundando numa desorganização de alguns anos – que se reflete na falta de títulos (desde 2003). Não é culpa de Roberto Dinamite que já pegou o Vasco num caos deixado por Eurico. A torcida compreendeu bem isso e não apedrejou o ídolo-presidente Dinamite, e cantou que a culpa era do Eurico no dia da queda. O quarto erro: Contratações mal planejadas. Alguém por favor pode me explicar porque o Vasco contratou o lateral-esquerdo reserva do CRB que era o vice-lanterna da série B na época da contratação? Sem falar em trazer de volta companheiros de Edmundo, que dizia se sentir o naúfrago, como Odvan e Pedrinho. Odvan um eterno zagueiro-zagueiro mais grosso que qualquer jogador meia-boca de usina. E Pedrinho, outrora um craque, sofrendo com a forma inadequada e contusões do passado. Isso sem falar no troca-troca de técnicos. Alfredo Sampaio que deu lugar a Antônio Lopes que deu lugar a Tita que jogou a batata quente na mão de Renato Gaúcho. Era uma questão de tempo a nau vascaína afundar. Resultado: 20 derrotas, 7 empates e apenas 11 vitórias com a segunda defesa mais vazada (72 gols) e a 18ª colocação culminando com a queda para a segundona. A pior campanha do time cruzmaltino.

 

O chamado – Agora que todos os vascaínos estão com o orgulho ferido – sendo chacota em todos os locais, se sentindo os restos, os excluídos –  reacendeu em mim o espírito vascaíno. Estranhamente eu fiquei buscando no domingo e na segunda-feira, muitas informações sobre o Vasco, não só sobre o rebaixamento. Coisa que eu nunca mais tinha me interessado. Li a reportagem que O Globo preparou com a foto de uma menina torcedora com a manchete: “A hora de ser grande”. Fiquei comovido. Lembrei do calvário de Palmeiras e Grêmio e, mais recentemente, do Corinthians. Mas lembrei também das juras de amor de suas torcidas, como o “Eu nunca vou te abandonar”. Uma prova que na dor, também existe a força do amor. Isso simboliza a volta por cima, o retorno da fênix. A força de vontade para vencer. A grandeza de um feito. O time volta forte, mais unido e sem os erros do passado. Vide o Grêmio que de segunda divisão foi vice brasileiro e tem vaga na Libertadores de 2009. Vide o Palmeiras que também garantiu sua vaga para a competição sul-americana mais importante.

 

Por isso, companheiros cruzmaltinos, eu vos digo: o calor do futebol voltou a bater no meu peito. Estranhamente, graças a uma desgraça. E eu tenho certeza que não estou só. Tomando emprestadas as palavras de Paulinho da Viola “se o Vasco for pra segunda, sou Vasco. Se for pra terceira, sou Vasco. E se o Vasco deixar de existir, ainda assim, sou Vasco”. Pois é, amigos-irmãos vascaínos. Em momentos de glória, uni-vos. Em momentos de dor, uni-vos mais ainda. Você que é do Amapá que é do Rio de Janeiro, que é do Mato-Grosso que é do Nordeste, uni-vos. Isto é uma convocação, vascaínos de todo o Brasil! Uni-vos! Uni-vos e mostrai-vos que somos fortes, que somos vascaínos, que somos loucos e apaixonados pelo futebol e por esse clube maravilhoso. Que é uma nova Era com nova gestão. Que o trabalho árduo começa agora. Que juntos venceremos mais uma vez. Embarque nessa caravela. Rumo às entranhas do Brasil com os jogos da série B. Para, no final, retornamos ao Porto de onde nunca deveríamos ter partido. Juntos, cada um merecedor da glória no grande retorno. Retornaremos com o tapete vermelho estendido e desceremos da caravela de mãos dadas como uma grande família. Afinal, “O sentimento não pode parar”.

 

Rafael Calheiros

Um novo vascaíno apaixonado

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personal: recorde

Julho 3, 2008

Agora eu vou fazer parte da próxima edição do Guinness Book junto com 8.002.530 (oito milhões, duas mil e quinhentas e trinta) pessoas espalhadas no mundo. Claro que meu nome não vai ser mencionado, mas me sinto uma parte desse recorde. Como eu consegui isso? Baixando o Firefox 3 no Day no Firefox Donwload Day

Parabéns a Mozilla e a nós, todos os usuários do Firefox, que juntos conseguimos o recorde so software mais baixado em 24 horas.

Aí segue meu certificado  ;)

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crônica: zezinho trabalho

Junho 6, 2008

Essa é a estória do Zezinho Trabalho. Um cara simples, humilde, alegre e que adora trabalhar. Claro, com o nome desses tinha que adorar trabalho. Não é em vão que colocaram esse apelido nele. Morava com sua mãe já idosa e com problemas de saúde. E Zezinho fazia de tudo pra ajudar sua mãe: a pessoa que ele mais admirava na face da Terra. Ela teve uma vida sofrida, corrida, vivida… Criou Zezinho com muita dificuldade. Moravam na periferia, num casebre bem humilde onde era dureza de se morar. É, Zezinho. Duro é viver. Mas, como todo ser humano, se adequou ao ambiente e, mais que isso: gostava do lugar. Quando tinha um tempinho, falava com o dono da padaria, jogava futebol com os amigos de bairro, conversava com os vizinhos e ia pra frente do salão de beleza admirar sua musa que trabalhava lá… Uma moçoila linda e trabalhadora. Gostava de roupas claras e compostas e sempre tinha um penteado da moda. Afinal de contas, entendia do assunto.

Bem, voltemos ao Zezinho Trabalho. E quanto trabalho, hein Zezinho! Mas ele num liga pra tanto trabalho. Como já disse, até gosta de ter muita coisa pra fazer. Pra ele é um hobby. E tenta contagiar seu ambiente de trabalho com sua simpatia. E conta histórias, piadas, e conversa muito. E fala da mulher gostosa que passou, das palavras arrogantes que o chefe proclamou, do veneno mortal que a ambiciosa novata destilou, das blasfêmias que um incrédulo profanou… E conversa muito. E os amigos escutam suas palavras extasiados. De fato, é um contador de histórias nato. “Conta mais Zezinho! Conta aquela história do menino que num falava a letra C!”. E Zezinho contava. E todo mundo se acabava de rir. “Como é engraçado esse Zezinho!”.

Mas, acabava aquela hora do cafezinho. E Zezinho voltava pro trabalho. Pegava sua ferramenta e passava pra lá e pra cá… e limpava aqui, e limpava ali e adorava limpar e adorava trabalhar. E assim Zezinho fazia, todos os dias o dia todo. Durante anos foi um trabalhador exemplar. Nunca se atrasava, trabalhava sorrindo, falava com todo mundo, e era impecável no seu serviço.

Mas, duro é viver. E a mãe do Zezinho piorou. E ele precisou faltar alguns dias no trabalho para cuidar da mãe. E ficava desesperado sem saber o que fazer com o absurdo de caro, aqueles remédios que o doutor passou. E pedia ajuda para os amigos, e vendia suas coisas, e enfrentava filas quilométricas nos hospitais…

Aí Zezinho foi convidado a se apresentar ao trabalho. Chegando lá, foi informado que não pertencia mais ao seleto grupo de trabalhadores de lá. Não adianta, Zezinho. Não adianta chorar e se desesperar. Eles não têm coração mesmo. Não importa seus anos de assiduidade, de trabalho competente, de sua alegria contagiante. Não adianta Zezinho. Não adianta se sua mãe ficou doente e precisa de você perto dela. “Precisamos de alguém que cumpra os horários assiduamente, e você já não pode preencher todos os requisitos”. E a empresa que Zezinho trabalhava ficou sem as famosas histórias que ele contava. O cafezinho ficou frio.

No habitat natural do ser humano, vale a lei da sobrevivência. E a lei da sobrevivência é isso: “primeiro eu depois os outros”. Sempre foi assim e continuará sendo durante um bom tempo. Não importa o que você faça, nunca reconhecerão seu trabalho. Aliás, importa sim: faça alguma besteira. Sua cabeça será pedida sem cerimônias.

Zezinho aprendeu isso da pior forma. Agora era um homem sem sorriso, sem esperança, sem emprego… E, o pior de tudo, sem mãe. Dona Maria não teve como comprar os remédios caros com sua mísera aposentadoria e não resistiu. E quem vê aquele senhor de barbas longas e sujas, de trapos fedidos, de rosto desconfiado e triste, de olhos amargurados, de cuia na mão… Não desconfia que ele já foi o Zezinho Trabalho que andava, sorria e contagiava as pessoas. Agora, mora na rua. E aquela sombra do Zezinho sorridente deu lugar ao velho moribundo….

Duro é viver.

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contos: histórias do meu Rio Grande

Janeiro 3, 2008

O dia que eu quase fui conversar com Deus foi o mesmo dia que o Capitão nascimento pediu autógrafo pro Marcelo D2

O HD é um cara gente-boa. o irmão do HD também é um cara gente-boa. Mas eles eu já conhecia antes de ir pro Rio Grande. Quem eu não conhecia era o Viagra. O Viagra também é um cara muito gente-boa. Não me perguntem porque chamavam o Viagra de Viagra. Eu não sei, mas posso imaginar. E vocês também podem imaginar. E eu nem perguntei pra ele porque era Viagra. Sabem como é né… homem normalmente é sacana. Eu imaginei que poderia ficar numa “sinuca de bico” e ser sacaneado na frente de todos. Sem, ao menos, ter uma resposta digna para reverter a situação. E um homem sem uma resposta pronta para reverter alguma situação vira chacota dos outros. E eu, definitivamente, não queria ser motivo de chacota.

Mas a história do Rio Grande não é sobre o Viagra, apesar dele ter participado ativamente (sem trocadilhos, por favor). A história é de como as coisas funcionam por lá. Bem… é claro que eu queria curtir a cidade. E que queria beber e tirar muita onda. “Ora! Não sou daqui e nem vim pra ficar. Quero é desmoralizar esse ambiente aqui. O máximo que eu puder!” E não é de se espantar que eu passei 80% bêbado do tempo que fiquei no Rio Grande. Os outros 20% eu passei dormindo. Pois bem, estávamos hospedados na casa do nosso amigo Ciço Bandêra. E ele estava numa semana muito corrida. Formatura, baile, missa, noivado, apresentação do TCC do primo e… cuidando dos hóspedes. É óbvio que ele num é de ferro. E tínhamos que dar uma trégua pro nosso pobre amigo Ciço Bandêra. Então fomos obrigados a mudar de guia turístico. Eis que surge a figura do Viagra.

Logo ele, “o mais esculhambado da festa”, como uma prima do Ciço Bandêra sabiamente mencionou. Eu que já estava muito biritado só fazia rir de tudo e de todos. O HD era o mais biritado. Já tava pra lá de Vladivostok. E bêbados, sabe como é né. Têm idéias absurdas e pensam que são brilhantes. Pois bem, a idéia brilhante foi de sairmos de carro para curtir uma na night. Depois de muita luta para nos liberarem – devido ao estado alcoólico da gente, saímos nós quatro. Eu, HD, irmão do HD e Viagra. O Viagra, além de guia turístico, era nosso motorista, nossa babá e, nessa altura do campeonato, nosso mais querido irmão. Bebemos mais. Fomos na Farrapos, desmoralizamos um pouco com a Priscila (essa já é outra história…) e fomos conhecer mais alguns lugares. Cruzamos a Oswaldo Aranha em frente ao parque Farroupilha. E estávamos no carro (com o Viagra dirigindo) falando num sei o quê sobre drogas, prostituição, canalhices… E estávamos rindo muito. E bebendo muito. Aí foi quando eu comecei a ver como as coisas funcionavam no Rio Grande.

Eu, biritado e morrendo de sono, percebi que o Viagra ficou perturbado. Olhei pro irmão do HD que estava no banco da frente do Uno Mille e percebi que ele também estava perturbado. Quando olho pelo vidro de trás do carro com fumê 100%, vejo umas luzes piscando e escuto as sirenes. Era “os hômi”. Pensei na hora: “Puta que pariu, fudeu!”. O Viagra foi obrigado a encostar o carro porque os caras da Brigada mandaram, gritando alto o suficiente para nós ouvirmos em alto e bom som.

- Pára o carro! Pára o carro agora! Pára, pára. Pára porra!

Os impacientes da Brigada já tinham emparelhado o carro apontado as armas pra gente. E eu num sabia direito o que tava acontecendo. Me disseram que a Brigada lá é o mesmo nome do Bope aqui. Parece que eles conservam esse nome do tempo da Guerra dos Farrapos.. Só que o HD num sabia disso. O HD num sabia era porra nenhuma do que tava acontecendo. Já tinha desmoralizado muito e tava dormindo no banco de trás do carro. Mas, foi obrigado a acordar. Que infeliz hora pra acordar. Infeliz pra gente. Acordou e voltou a esculhambar.

- Que merda é essa? – Gritou o HD.
- Cala a boca, velho! São os “hômi”, porra! –
Eu sussurei no ouvido dele.
- Que hômi de quê? –
Sem saber o que estava acontecendo ainda…
- Puta merda. Tamo fudido, véi! Tamo fudido! –
O pânico já havia tomado conta de mim. Afinal de contas, sou um medroso nato.
- Aí gente, fiquem caladinhos aí. Deixe que eu resolvo, beleza? –
ordenou o Viagra, não menos assustado que nós. mas sóbrio o suficiente pra tentar argumentar alguma coisa.

Nisso, os homens desceram do carro. Armado até os dentes. Sem nenhuma cordialidade. Também pudera: quatro elementos num Uno Mille desmoralizando às 2h da manhã num dia de quinta-feira não exigia cordialidade de forma alguma. Mas ao mesmo tempo eu pensava: “Num pode ser tão ruim assim? Num fizemos nada de errado…”. Nada de errado, uma teta. O Viagra e o HD tinham fumado um in nature, estávamos com bebidas alcoólicas dentro do carro e desmoralizamos há pouco tempo a Priscila lá na Farrapos. Tentava me enganar, mas não tinha jeito: fizemos merda e estávamos fudidos. Descemos do carro para um baculejo. Quatro caras da Brigada. Um com uma escopeta, dois com uma sub-metralhadora e um com uma pistola. E mais uma vez eu pensei: “É, agora fudeu de verdade! Puta que pariu!”. Como foi dito, o Viagra era o mais sóbrio. Ele tratou de tentar explicar a situação. Mas quem disse que a vida é fácil? “Os hômi” não queriam escutar nada e mandou o pobre do Viagra calar a boca. A essa altura meu álcool já tinha passado e minhas calças estavam borradas. Pudera. E o HD, continuava sem saber o que porra tava acontecendo…

“Os hômi” mandaram a gente se encostar na parede e colocar a mão na nuca enquanto um revistava o carro. A fila na parede na ordem: Viagra, eu, irmão do HD e o HD. E o HD começou a resmungar e depois a falar, cambaleando nas palavras:

- Mas são uns filha da puta mesmo! O cara num pode nem beber e desmoralizar nessa porra de cidade.
- Fica na tua, porra. – balbuciou o irmão do HD.
– Fico porra nenhuma! Esses cara devem ser de Pelotas. Fica com essas merdas de armas pra fazer medo na gente. Só pra ficar alisando a gente! Nessa terra só tem baitola mesmo! Você viu o tamanho da escopeta? Se vier aqui vai ter porrada.

E eu rezando, em silêncio, pedindo aos céus, que os quatro da Brigada fossem surdos. Infelizmente, não eram. Enquanto isso o Viagra continuava na sua tentativa de argumentar alguma coisa com algum policial que só fazia cara de mau e fingia que num escutava porra nenhuma, enquanto fazia o baculejo.

Quando o HD falou isso eu fechei o olho esperando o balaço na cabeça. Era tirar onda demais com “os hômi”. Pra eles não teria problema nenhum mandar quatro bêbados pra “Terra dos Pés juntos”. A única coisa que pensei foi: “Na cara não, pra num estragar o velório…”. Mas aí aconteceu aquelas coisas maravilhosas de Deus. A essa altura eu já tinha me convertido a católico, budista, protestante, judeu, islâmico… Era uma ótima hora pra acontecer um milagre. Não sei o porquê, mas depois que o HD falou aquilo teve um silêncio longo e tenebroso. Aí o cara que tava com a escopeta começou a rir. Rir de verdade. Gargalhar. E os outros começaram a rir também. Ora três moreninhos (um cabeludo e barbudo) e um branquelo cabeludo. Sem falar que os morenos falavam engraçado. Com um sotaque bem carregado. Típico do Nordeste.

- Mas bah, eu tô reconhecendo esse guri. – comentou um policial.
– Sim! É verdade tchê! Mas num é o Marcelo D2! – confirmou o outro policial da Brigada.
– Sim, sim! Ele mesmo!
– Mas eu não sabia que o Marcelo D2 era do Nordeste, tchê.
– Bah! Na televisão ele nem aparece com o sotaque. E ele é menos feio do que pessoalmente.
– Deve ser porque está sem maquiagem, tchê. Esses artistas são tudo louco.

E eu num tava entendendo porra nenhuma, mas tava aliviado. É que dizem que o HD tem um rosto muito louco. Se uma pessoa gosta de rock melancólico vai achá-lo com a cara do Renato Russo, se gosta de rock revolucionário, vai achá-lo com a cara do Raul Seixas e se gosta de Hip-Hop, vai achá-lo com a cara do Marcelo D2. Para nossa sorte o Hip-Hop tava em alta no Rio Grande e “os hômi” curtia muito. Nisso, chegou o quarto policial que estava revistando o carro.

- Pode liberar, num são eles não.
– Claro que num é! Aqui é o carro do Marcelo D2! Vou até pegar um autógrafo pra dar pro meu guri.

E então começamos a nos sentir aliviados. E o Viagra não precisou mais tentar argumentar alguma coisa. O policial brigou com a gente querendo saber porque não tínhamos dito que era da banda do Marcelo D2. Que se tivéssemos dito, liberava na hora. E o Viagra, que tem um ótimo poder de persuasão, lembrou que o policial da sub-metralhadora não tinha deixado ele falar porra nenhuma. Por uma coincidência incrível, que uns adoram dar o nome de destino, iria ter um show em Porto Alegre do Marcelo D2 naquele final de semana.

Parece que o HD tinha recuperado a consciência e não esculhambou mais os policiais. Mas decidiu entrar no jogo de Marcelo D2. Perguntou o nome do filho do policial que gostava de Hip-Hop e disse que ia dar uma autógrafo especial pra ele. O policial ficou todo bobo. Rindo e com um brilho no olhar de que realmente estava feliz de estar naquele momento, naquele lugar com a gente: a banda do Marcelo D2. Enquanto o HD rabiscava num pedaço de papel que o Capitão Nascimento (a essa altura ele já tinha dito o nome dele, do filho dele e do pessoal. E que coincidência! Um Capitão Nascimento pra aterrorizar a cidade!) deu pra ele, o Goulart (nome do policial da pistola) estava nos explicando que há pouco tempo havia acontecido um assalto a mão armada. E que os suspeitos eram quatro e tinham fugido num Uno Mille com vidro fumê. Era coincidência demais para um medroso numa única noite.

O Capitão Nascimento pediu desculpas pra gente e nos liberou. A gente desejou boa sorte na caçada e fomos embora. Ainda meio assustados, mas já aliviados. Decidimos terminar de beber em casa. Foi emoção demais pra quem está acostumado com uma vida pacata. Vai que em outra blitz dessa o cara não goste muito de escutar músicas…

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ele x ela: férias

Janeiro 1, 2008

Ela: – Amor!! Vamos fazer mergulho!!??
Ele: – Não.
Ela: – Vamos amor! Por favor! Vai ser lindo.
Ele: – Não gosto dessas coisas.
Ela: – Mas vai ser muito bom!! Você vai adorar. Vai ter peixinhos, corais lindos, mais peixinhos, golfinhos… vai ser muito lindo!
Ele: – Não amor, obrigado. Não gosto dessas coisas tediosas.
Ela: – Tediosas??? Vai ser emocionante… o moço disse que nessa época os tubarões costumam aparecer por lá…
Ele: – Tubarões???
Ela: – É… mas ele disse que num tem perigo não… os tubarões tem uma fartura daquelas nessa região.
Ele: – Ah… mas eu num quero não, amor.
Ela: – Só quer saber de ficar sentado aí na sombra e bebendo cerveja. Poderia fazer isso em casa!!!
Ele: – Pois é…
Ela: – Aahh…. já entendi porque você num quer mergulhar. Está morrendo de medo dos tubarões!!
Ele: – Medo?
Ela: – É!!
Ele: – Eu vivo constantemente entre tubarões, minha linda.
Ela: – …

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personal: devaneios

Dezembro 30, 2007

A tristeza bate e o motivo ninguém sabe. Ninguém quer ser triste. Ninguém quer ter defeitos. Mas há coisas que está além da capacidade humana. Há coisas que simplesmente são e que não podem ser alteradas. Os devaneios deste pobre homem que vos escreve não servem para mostrar-lhes claramente que tipo de “coisas” são essas. Eu sinto uma sensação estranha que nunca me abandona. É aquela sensação de estar sempre no lugar errado e na hora errada. Sempre me sinto um peixe fora d’água. Nos bares, entre amigos, em aulas, trabalho… Sempre a sensação de ser um inútil. Aí vem os pensamentos loucos-filosóficos questionando para quê estamos aqui. Aí vem os sonhos nos dizendo que é preciso grandes atitudes em grandes problemas/situações/ocasiões… E que atitudes são essas? Em que situações? Acho que são apenas sonhos. E que o homem nunca está satisfeito com o que tem e o que é: egoísmo incrustado no cerne do ser humano. Detectado o problema, como livrar-se disso? Voltemos a situação anterior: Há coisas que simplesmente são e não podem ser alteradas.

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crônica: o folião infeliz

Dezembro 25, 2007

Essa é a história de um jovem folião. Sim, um jovem. Com coração bom. Um folião que adorava folia. Evidente, oras! Um folião que passeava de noite e dormia de dia. Portanto, um folião boêmio. Sabia de tudo que acontecia em sua cidade. Sabia das festas. Dos melhores bares. Das melhores boates. Sabia qual era o melhor dia de sair e o melhor dia de ficar em casa. Sabia das melhores bebidas. Das melhores comidas. Dos lugares pra paquerar e dos lugares pra relaxar. Era um folião-boêmio informado. Que fazia o que gostava… E sabia fazer muito bem! Fez o dever de casa. Um folião bonito. E muito simpático. E bem relacionado também. Ué, um folião desses como pode ser infeliz? Como pode ser infeliz um folião desses? Eu sei que pode. Mas ainda não está na hora. Continuemos a história do nosso folião-boêmio-informado e, agora, bonito. O folião não gostava de ficar em casa. Saía sempre. Ia para grandes shows. Freqüentava salas VIP’s. Pulava carnaval com o povão. Viajava para muitos lugares. Era muito fiel aos seus amigos. Não há quem não gostasse dele. E procurava. Ia para todos os lugares para procurar. E procurava… E procurava… E nunca achava.

E lá estava ele denovo. Procurando. E lá estava ele denovo. Numa grande festa. Numa festa da High Society. Falando com todos. E todos falando com ele.  Era simpático e bonito, como já foi dito. Seu sorriso era cativante. Seus gestos bem educados e ensaiados. Sua roupa era elegante. Seus cabelos negros, arrumados. Impecável. Muitas mulheres falavam com ele. E até esperavam que ele fosse para as festas. Era desejado pelas moças e invejado pelos rapazes. Todos queriam estar perto dele. Tirava fotos. Saía nas principais colunas sociais. Conhecia bons partidos. Mas não achava. E procurava… e não achava…

E ia para as festas. Andando… Vagueando… Procurando… Procurando um amor. Procurando a sua vida. Procurando a felicidade. Procurando por ela: Sofia. O nosso folião protagonista era simpático e bonito, tinha um sorriso cativante. Gestos bem educados e ensaiados. Roupa elegante. Cabelos negros, arrumados. Mas seus olhos não brilhavam. Não tinha o brilho de quem é feliz e ama viver. Era um olhar angustiado. De quem procura. Um olhar triste de quem procura e nunca acha. Sofia havia desaparecido de sua vida por mais de 10 anos. Ele nunca superara. E, na verdade, nunca tivera Sofia. Nunca tivera a coragem de confessar seu amor puro e sublime para Sofia. Ele nunca esquecera aquele único encontro que tiveram. Por acaso. Quando se conheceram. Teve a oportunidade de falar com ela. Trocaram algumas palavras… E ele nunca mais foi o mesmo. E sofreu desde então. Não se faz necessário dizer o conteúdo da conversa dos dois. Apenas que ele nunca esquecera Sofia. Logo ele! Que nunca acreditara em amor. Ainda mais à primeira vista! Mas nosso protagonista sabia que perdera a oportunidade de sua vida. Sabia que a vida era feita de pequenas atitudes. E que poderia ser mudada em frações de segundo. Sabia que, na verdade, a vida era feita dessas pequenas atitudes e só. Nunca pensara em grandes atitudes. Mas perdera.

E procurava…  E procurava… E freqüentava as festas. E continuava com seus gestos robustos e ensaiados. Mas sem brilho no olhar. E invejava os casais que riam e se amavam nos bancos da praça. E ele chorava. Chorava muito. E dormia. Dormia de dia com a ajuda dos remédios. E dormia de dia para não ver essas coisas. Tudo que ele invejava. E de noite saía. E procurava…

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ele x ela: depressão

Dezembro 24, 2007

- Vamos sair hoje?
- Não.
- Por quê? Tá uma noite muito bonita e agradável.
- Não quero.
- Por que você está tão seco ultimamente? O que eu te fiz?
- Nada.
- Então por que tá me tratando assim ultimamente?
- Porque quero ficar sozinho.
- Hã?
- Isso mesmo.
- Vamos sair…. Garanto que você vai se divertir hoje.
- Já disse que não.
- Mas, pod….
- Quer que eu seja mais seco e rude que já fui?
- Não quero não… Tá bom. Já entendi…. at…
- Tchau.

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ele x ela: sutileza

Outubro 24, 2007

- Quanto tempo!!
- Pois é… Nunca mais te vi…
- A última vez foi aquele dia lá em casa né, que vc foi pra assistir o filme..
- É… e vc disse que ia me emprestar e até agora, né! Tratante!
- É que eu num tive tempo…
- Nem pra atender o telefone?
- É que eu num pude atender…
- Nem ligar depois, né?
- É que eu tô lisa… Num tinha como ligar! kkkkkkk
- Sei…
- Sério, menino!
- Hum… vc parece comigo…
- Como assim?
- Quando num quer mais uma coisa, é sutil pra dispensar…
- … 
- Relax, mocinha! No stress comigo.
- Né nada disso não, menino! Oxe!
- Tá certo… ma dá próxima vez você liga! 

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músicas: eu sou egoísta

Outubro 7, 2007

Nada como escutar um pouco de Raul Seixas para mudar os ânimos e dar um “upgrade” nos pensamentos…

“Eu sou egoísta
Composição: Raul Seixas

Se você acha que tem pouca sorte
Se lhe preocupa a doença ou a morte
Se você sente receio do inferno
Do fogo eterno, de Deus, do mal

Eu sou estrela no abismo do espaço
O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço
Onde eu tô não há bicho papão
Eu vou sempre avante no nada infinito
Flamejando meu rock, o meu grito
Minha espada é a guitarra na mão

Se o que você quer em sua vida é só paz
Muitas doçuras, seu nome em cartaz
E fica arretado se o açúcar demora
E você chora, você reza, você pede, implora…

Enquanto eu provo sempre o vinagre e o vinho
Eu quero é ter tentação no caminho
Pois o homem é o exercício que faz

Eu sei, sei que o mais puro gosto do mel
É apenas defeito do fel
E que a guerra é produto da paz

O que eu como a prato pleno
Bem pode ser o seu veneno
Mas como vai você saber
Sem tentar?

Se você acha o que eu digo fascista
Mista, simplista ou anti-socialista
Eu admito, você tá na pista
Eu sou ista, eu sou ego
Eu sou ista, eu sou ego
Eu sou egoísta, eu sou egoísta
Por que não?”

Pra quem ainda não escutou aí vai: