“Vamos todos cantar de gozação, a cruz de malta é segunda divisão…”: satirizar o hino do Vasco da Gama foi a primeira gozação dos torcedores que desejavam vorazmente a queda do time da Colina para a segunda divisão do Brasileirão. Já fazia certo tempo que eu não era mais um torcedor fanático. Mas, imagino o desespero dos torcedores.
Deixei de ser lunático pelo Vasco depois que Edmundo – ora herói, ora vilão -, perdeu o pênalti decisivo na final do mundial de clubes da Fifa, em 2000, dando o título ao time que eu mais detestava, até então. Depois daquela perda lamentável e de momentos de cólera pós-jogo – não tanto quanto o torcedor que ameaçou se matar -, decidi abandonar o fanatismo pelo futebol e acompanhá-lo de forma mais fria e racional.
“Ex-vascaíno” – No começo foi difícil, mas até que as feridas foram cicatrizando. Falava de futebol nacional e internacional, de análises, de jogadores… E começava a ganhar algum respeito na roda de discussão. Discutia com os amigos e normalmente conseguia tirar alguns do sério. Principalmente quando começava a falar mal do time do sofre… digo torcedor.
Pudera. Imagine como deve ser chato alguém falar mal do seu time e você não ter como revidar porque quem falou mal está blindado com a imunidade de não torcer para nenhum clube. E o pior de tudo: sem ter um time definido, esse alguém entende bem de futebol e enche o seu saco. Pois é, era exatamente assim que eu me comportava. E modéstia a parte, de futebol entendo razoavelmente bem.
Então eu me tornei um diabinho para os fanáticos. Infernizava quando o time de algum amigo perdia fazendo até o pobre torcedor fanático chorar: como o meu amigo botafoguense que ficou em prantos quando o Flamengo ganhou o carioca deste ano. Não preciso dizer que ele ficou duas semanas sem falar comigo, de tanta raiva que eu fiz. Depois eu tive que consolá-lo seriamente para que ele aceitasse meus pedidos de desculpas. Eu só conseguia rir muito e contar para os outros amigos.
Porém, eu era visto com maus olhos: de torcedor vascaíno fanático a “chato sem alma”. “Que cara ruim. Ele é muito cruel. Não tem coração. Não tem pena de ninguém”. Eu usava qualquer camisa de time. Tenho foto com a camisa do flamengo, do Grêmio, do São Paulo e do Corinthians… “E eu ligo?” Já chegaram a me acusar de cafajeste. Quem não tem amor a um time não tem amor a ninguém. Sem falar que eu nunca mais sentiria o gostinho, a emoção, o prazer, a satisfação, a felicidade de ser campeão. Contrariando o ditado de que “É melhor sofrer por um amor com a esperança de desfrutá-lo do que não amar”, eu preferia não amar.
A última rodada – Confesso que acompanhei a última rodada do Brasileirão. Saí de casa, fui correndo no trabalho da minha namorada buscá-la e fui correndo pra casa dela pra acompanhar os jogos. Tudo pra não perder nenhum lance e nenhuma informação. Torci para o Flamengo perder do Atlético-PR e ficar fora da Libertadores, pro São Paulo passar pelo Goiás e ser campeão, Pro Náutico bater o Santos e se safar da degola e pro Vasco tropeçar no Vitória e cair pra Segundona. Deu tudo certo, pelo menos para mim. Mas quando o juizão deu o apito final redescobri o que é ser vascaíno. As imagens de Pedrinho chorando, de Pai Santana também em prantos, do desespero da torcida, me emocionaram. Torci pela queda não por masoquismo, ou crueldade, mas por organização e reestruturação do clube. Às vezes é preciso um remédio amargo para a cura de um mal. Às vezes se faz necessário mais do que amor para se conseguir alguma glória. Faz-se necessário a dor. E o Vasco precisa passar por uma dor como essa.
O Naufrágio – Dando uma breve vasculhada na internet, encontrei uma reportagem especial – o Naufrágio Vascaíno – do jornal online O Dia, do Rio de Janeiro. Encontrei alguns motivos que eu, como todo bom brasileiro de memória curta, já estava esquecido. E que foi fundamental para a tragédia de 2008. O primeiro erro: enquanto todos os times brasileiros estavam fazendo uma pré-temporada estudando suas pretensões para 2008, o Vasco estava viajando para disputar um torneio sem pé nem cabeça nos Emirados Árabes. Trocou a boa preparação e planejamento para 2008 por um punhado de dólares oriundos do petróleo. O segundo erro: manter Edmundo como cobrador oficial de pênaltis. Está mais do que provado que Edmundo não tem cabeça para uma cobrança de penalidade ou, simplesmente, não sabe cobrar. A maioria dos gols de pênaltis feitos por Edmundo são mal cobrados. Esse ano, mais uma vez perdeu alguns no Brasileirão e perdeu um que poderia mudar a sorte do Vasco em 2008: um pênalti na semifinal contra o Sport na Copa do Brasil. O Sport chegou à final e bateu o Corinthians, tornando-se o primeiro time do Nordeste a ser campeão da Copa do Brasil.
Terceiro erro: A briga política. Enquanto os holofotes da imprensa e dos próprios funcionários do clube estavam voltados na eleição da presidência, o futebol ficou de lado. Com a mudança da gestão, O Vasco ficou completamente desorganizado. Na verdade, não ficou desorganizado, ficou mais transparente e democrático. Mostrou que o clube já vinha afundando numa desorganização de alguns anos – que se reflete na falta de títulos (desde 2003). Não é culpa de Roberto Dinamite que já pegou o Vasco num caos deixado por Eurico. A torcida compreendeu bem isso e não apedrejou o ídolo-presidente Dinamite, e cantou que a culpa era do Eurico no dia da queda. O quarto erro: Contratações mal planejadas. Alguém por favor pode me explicar porque o Vasco contratou o lateral-esquerdo reserva do CRB que era o vice-lanterna da série B na época da contratação? Sem falar em trazer de volta companheiros de Edmundo, que dizia se sentir o naúfrago, como Odvan e Pedrinho. Odvan um eterno zagueiro-zagueiro mais grosso que qualquer jogador meia-boca de usina. E Pedrinho, outrora um craque, sofrendo com a forma inadequada e contusões do passado. Isso sem falar no troca-troca de técnicos. Alfredo Sampaio que deu lugar a Antônio Lopes que deu lugar a Tita que jogou a batata quente na mão de Renato Gaúcho. Era uma questão de tempo a nau vascaína afundar. Resultado: 20 derrotas, 7 empates e apenas 11 vitórias com a segunda defesa mais vazada (72 gols) e a 18ª colocação culminando com a queda para a segundona. A pior campanha do time cruzmaltino.
O chamado – Agora que todos os vascaínos estão com o orgulho ferido – sendo chacota em todos os locais, se sentindo os restos, os excluídos – reacendeu em mim o espírito vascaíno. Estranhamente eu fiquei buscando no domingo e na segunda-feira, muitas informações sobre o Vasco, não só sobre o rebaixamento. Coisa que eu nunca mais tinha me interessado. Li a reportagem que O Globo preparou com a foto de uma menina torcedora com a manchete: “A hora de ser grande”. Fiquei comovido. Lembrei do calvário de Palmeiras e Grêmio e, mais recentemente, do Corinthians. Mas lembrei também das juras de amor de suas torcidas, como o “Eu nunca vou te abandonar”. Uma prova que na dor, também existe a força do amor. Isso simboliza a volta por cima, o retorno da fênix. A força de vontade para vencer. A grandeza de um feito. O time volta forte, mais unido e sem os erros do passado. Vide o Grêmio que de segunda divisão foi vice brasileiro e tem vaga na Libertadores de 2009. Vide o Palmeiras que também garantiu sua vaga para a competição sul-americana mais importante.
Por isso, companheiros cruzmaltinos, eu vos digo: o calor do futebol voltou a bater no meu peito. Estranhamente, graças a uma desgraça. E eu tenho certeza que não estou só. Tomando emprestadas as palavras de Paulinho da Viola “se o Vasco for pra segunda, sou Vasco. Se for pra terceira, sou Vasco. E se o Vasco deixar de existir, ainda assim, sou Vasco”. Pois é, amigos-irmãos vascaínos. Em momentos de glória, uni-vos. Em momentos de dor, uni-vos mais ainda. Você que é do Amapá que é do Rio de Janeiro, que é do Mato-Grosso que é do Nordeste, uni-vos. Isto é uma convocação, vascaínos de todo o Brasil! Uni-vos! Uni-vos e mostrai-vos que somos fortes, que somos vascaínos, que somos loucos e apaixonados pelo futebol e por esse clube maravilhoso. Que é uma nova Era com nova gestão. Que o trabalho árduo começa agora. Que juntos venceremos mais uma vez. Embarque nessa caravela. Rumo às entranhas do Brasil com os jogos da série B. Para, no final, retornamos ao Porto de onde nunca deveríamos ter partido. Juntos, cada um merecedor da glória no grande retorno. Retornaremos com o tapete vermelho estendido e desceremos da caravela de mãos dadas como uma grande família. Afinal, “O sentimento não pode parar”.
Rafael Calheiros
Um novo vascaíno apaixonado



