Arquivo de agosto, 2007

crônica: era uma vez

Publicado: agosto 19, 2007 em crônica

Era uma vez um homem capitalista. Um homem capitalista num mundo nada socialista. Nem socializável. Era uma vez um porco capitalista. Com as mesmas características que o homem capitalista. Era uma vez uma criança que gostava de pensar. De filosofar. Era uma vez um mestre. Um mestre que ensinava a criança a pensar e a questionar. Era uma vez aulas produtivas. Aulas que faziam a criança questionar. Numa dessas aulas, o mestre solicitou para a criança que ela pensasse qual era a semelhança entre um homem e um porco. Depois de pensar bem, a criança concluiu que ambos não tem a plena consciência que são porcos. O mestre achou interessante, apesar de pessimista, a resposta daquela criança inocente. Não satisfeito perguntou qual era a diferença entre eles. A criança utilizou apenas diferenças físicas. O mestre admirou a perspicácia daquela criança. Mas não conseguiu esconder um pouco de frustração por esperar uma resposta a altura da anterior. A criança também notou isso e para ela mesma, não obteve uma resposta satisfatória.

Essa criança foi crescendo e foi se esquecendo de pensar. Foi se acostumando a viver como um acéfalo. Sem a principal característica do homem. A criança, agora não tão criança assim, estudou. Estudou, se formou, trabalhou, cresceu, namorou, enganou, mentiu, chorou, sorriu, conquistou, se exibiu. Como todas as pessoas normais fazem.

No meio da estória dessa criança, que agora cresceu, trabalhos surgiram. E o jovem, que não era mais uma criança, queria mostrar seu trabalho. Afinal, ele estudou, se formou, cresceu e agora quer ganhar dinheiro. Como todas as pessoas normais fazem. Um amigo desse jovem viu que ele queria trabalhar e ganhar dinheiro e o indicou para uma instituição para vender seu peixe. Seu produto, seu projeto.

O jovem, feliz da vida por ser indicado por alguém, foi a tal da instituição para ganhar dinheiro. Conversou com o manda-chuva que disse que podia começar a trabalhar. Mas que as questões financeiras resolvessem com o Diretor Financeiro.

Conversando com o Diretor Financeiro, o jovem fez um orçamento bastante justo. Levou em consideração que ainda não era profissional. Fez um precinho de estudante mesmo. O jovem pediu 20 moedas esterlinas, enquanto que no mercado cobrariam 50 moedas esterlinas. Mas para não perder essa oferta e para começar a construir seu perfil profissional, fez esse precinho. Porque é apenas um estudante querendo ajudar nas despesas de casa. 20 moedas esterlinas não é tão ruim assim. Tem gente que trabalha durante um mês para ganhar 3 moedas esterlinas.

Mas o Diretor Financeiro fez cara feia, chorou, esperneou. Aliás, fingiu. Usou toda sua experiência de negociante para escolher a melhor oferta para instituição – não, não. De jeito nenhum ele superfaturou as notas fiscais e os orçamentos para tirar seus honorários extras. Além de superfaturar, fez o jovenzinho, que parecia uma criança, receber apenas 12 moedas pelo seu trabalho que valia 50 moedas. O jovem ficou triste mas aceitou a proposta do Sr. Diretor Financeiro.
Saiu da sala de negociações pensando no seu mestre. Lembrou da aula do porco. E notou que a poucos segundos não sabia o quê estava diante dele. Pensou naquela resposta que deu para seu mestre. Mas os anos se passaram, e seu cérebro era cada vez menor. Sua idéias, não eram boas idéias. A única conclusão que chegou sobre a diferença entre homens e porcos é que estes se tratam como semelhantes. Ora um porco trata outro porco como um porco. Mas o homem trata outro homem como um porco.

resenha: a arte da palavra

Publicado: agosto 16, 2007 em resenha

Rafael Calheiros
Resenha do livro História Universal da Eloqüência de Hélio Sodré

A palavra é uma arma acessível a qualquer homem. Independente de credo, raça, sexo ou condição social. Sua onipotência existe desde o que chamamos de história e resiste, firme e forte, até os dias atuais. Foi fundamental em momentos críticos da história conhecida e contada pelo homem, mudou rumos, criou verdades e mentiras, imortalizou deuses e heróis como enterrou vilões e covardes. Foi a palavra que informou e manipulou o homem, com o passar dos séculos. E ainda engana. É uma arma poderosa, estridente. Completo afirmando que é uma arma acessível a qualquer homem desde que o mesmo aceite o hercúleo desafio de manuseiá-la, dominá-la. Poucos se dedicam a esse árduo, mas proveitoso, trabalho. A palavra é tão poderosa que, com um simples disparo, pode destruir um ser. Aniquilar para sempre qualquer um que duvide de seu poder. Nada de quebrar ossos, deixar hematomas ou dilacerar a pele. Seu poder é maior. Invade o corpo e atinge a mente. A alma. Transforma o pobre ser, vítima do disparo, em homem-zumbi incapaz de se reerguer perante a sociedade e as futuras gerações.

Quem faz história são as pessoas que a escrevem (talvez a seu bel-prazer, já que a história é escrita pelos vencedores); que documentam os fatos. A arte da palavra faz com que conheçamos interpretações do nosso passado. Ter história. Verdadeira ou não, mas ter história. Sem a palavra escrita, documentada, o passado seria uma incógnita. E o presente, primitivo. Já que aprendemos com os erros dos nossos ancestrais para evoluir. E evoluímos, seja na ciência, espírito ou comportamento social, graças aos antepassados.

A palavra é arte, de onde deriva a literatura, outra arte. Aí entram em cena os escritores e oradores. É evidente que ao falar-se de literatura, não se pode considerar nem a fala usual, nem a escrita corriqueira. A literatura é a arte de criar beleza por meio da palavra, como diria Hélio Sodré – autor do célebre ‘História universal da eloqüência’.

Se a palavra escrita fica eternizada em livros e um grande número de pessoas pode ter acesso, a palavra falada é a mais poderosa. “O estudo dos livros é uma atividade fraca e repousada que não entusiasma, ao passo que a discussão ensina e exercita ao mesmo tempo”, disse Montaigne. A eloqüência lida com a voz e com os gestos. Por isso é a mais viva e a mais mortal das artes. A mais viva porque é palavra, voz e gesto. Quando bem usada empolga multidões. A mais mortal porque os oradores levam consigo, para o túmulo, dois dos seus requisitos primordiais: a voz e o gesto. Mas, que importa que a eloqüência é a mais mortal das artes se, quando em ação, nenhuma outra consegue sobrepujá-la?

Toda arte sugere, comunica, convida. Mas, a eloqüência impõe. O efeito das outras artes é lento, o da oratória imediato. Um livro age vagarosamente; a eloqüência, vertiginosamente. Usando mais uma vez as brilhantes palavras de Hélio Sodré: “Um livro – palavra escrita – pode gerar uma revolução. Mas a eloqüência – palavra falada – pode desencadear a revolução”. E isso porque a eloqüência não se satisfaz, apenas em expressar um sentimento ou traduzir uma idéia. Seus objetivos são maiores. Além de expressar, aspira convencer e persuadir. O orador perfeito deve reunir em si, não só as qualidades de filósofo, mas também as do poeta e as do ator. Poeta, para deleitar e comover, falando ao coração e ao sentimento. Filósofo, para instruir e convencer, falando à razão e ao entendimento. E ator, para dar vida e vigor às suas palavras.

É quase impossível não admirar um discurso eloqüente. Cometendo o sacrilégio de ‘tomar as palavras emprestadas’, exemplifico com o belo discurso de Caio Graco – notável tribuno da Roma Antiga – que antes de defender uma causa perdida, ganhou o público com sábias palavras: “Cidadãos, se sois inteligentes e honestos, não encontrareis, entre nós, um único que fale sem esperança de recompensa. Todos os oradores querem conseguir qualquer coisa. Eu próprio, que vos falo, e falo para acautelar os vossos interesses e aumentar os vossos rendimentos, também não o faço desinteressadamente. Simplesmente, não espero de vós dinheiro, mas sim atenção e aplauso!”. Só para constar, Caio Graco – jovem orador romano, em um dos seus primeiros discursos – ganhou a causa. Talvez tenha se saído muito bem por ter feito uma boa introdução. Ganhou o respeito dos concidadãos, e se sentiu a vontade no tribunal.

Para finalizar esse breve elogio à palavra, cito Victor Hugo: “Uma palavra caída de uma tribuna cria sempre raízes em alguma parte. Dizeis: não é nada, é um homem que fala. Encolheis os ombros. Espíritos de curto alcance! Dizeis que não é nada e é um futuro que germina, é um mundo que desabrocha!”

Abaixo, uma matéria que escrevi quando estava no terceiro ano da universidade de jornalismo e era estagiário de uma empresa de comunicação de jornal impresso em Alagoas:


“TCC: Sinônimo de preocupação

Monografias são uma verdadeira “dor de cabeça” para maioria dos estudantes

Desde os tempos de ensino médio, o sonho de se obter um curso superior para o ingresso ao mercado de trabalho ou carreira no meio acadêmico, povoa a mente de muitos jovens. Lutam com muito esforço e passam de uma etapa considerada muito cruel para eles: o vestibular. Depois de superada essa etapa, o sonho do curso superior está cada vez mais próximo. Até que surge o maior teste e dor de cabeça para muitos alunos, “o temido” Trabalho de Conclusão de Curso: o TCC. Três letrinhas que deixam muitos alunos com calafrios, só de pensar.

Para o estudante de Administração Carlos dos Santos, o TCC é a grande preocupação dentro da universidade. Apesar de ainda estar no 2º ano do curso, já está apreensivo em determinar logo um tema para a monografia. “Preciso achar logo um tema que me interesse para não deixar tudo para o último ano”. A maioria dos professores tenta acalmar os alunos dizendo que o projeto não é tão complicado quanto parece e ensina para eles algumas dicas para trabalhar etapa por etapa sem perder noites de sono.

Mas afinal, como fazer uma monografia? O TCC é científico se: trata um objeto de estudo (tema) de maneira tal que pode ser reconhecido pelos demais; a pesquisa diz coisas sobre esse tema que não foram ditas antes ou o aborda sob nova ótica; é útil aos demais; e proporciona elementos que permitem confirmar ou refutar as hipóteses que apresentam, de maneira tal que os outros possam continuar o trabalho contribuindo para amplitude da discussão do tema.

Muitas vezes, o aluno está no último ano do curso e ainda nem tem idéia de como fazer sua monografia, indispensável para a obtenção do certificado. Depois de tanta luta, tanto estudo, não se pode desanimar e entregar à universidade um trabalho qualquer.

Com a dedicação para concluir a monografia se aprende, entre outros saberes a:delimitar um problema; descobrir e reunir informação adequada; classificar todas as informações; exercitar o espírito crítico; comunicar os resultados por escrito; e expressar oralmente frente à banca examinadora. São lições que ajuda o concluinte a resolver problemas durante toda a vida.

A dedicação para se fazer um bom trabalho é fundamental para o projeto ser reconhecido no meio acadêmico – que facilita para uma possível especialização – e evita que ele fique jogado e empoeirado em uma prateleira qualquer da biblioteca da universidade.

Exemplo de um bom trabalho

Para Ismael Tcham, um africano de Guiné Bissau que mora há cinco anos em Alagoas, é preciso se decidir logo como fazer o Trabalho de Conclusão de Curso. Formado em Relações Públicas pela Universidade Federal de Alagoas, ele conta que suas idéias surgiram a partir do terceiro ano do curso, mas que as pessoas devem escolher o tema o quanto antes.

Por não ter escolhido o assunto tão cedo quanto gostaria, teve pequenas dificuldades para escrever o TCC. Entre elas, pequenas diferenças no idioma e por não estar familiarizado com as regras da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), exigida pela universidade para trabalhos científicos. Por outro lado, contou com um orientador sempre presente e com um ótimo acervo do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab) – que integrou parte de seu trabalho -, com artigos de jornais e material sempre novo e relevante para sua pesquisa. Com o tema “Racismo, ações afirmativas e proposta de comunicação para o neab” teve seu projeto, em parceria com o estudante David Oliveira, aprovado com louvor e sem retoque. Seu trabalho já está em processo de transformação para livro e será publicado dentro dos próximos dois anos pela editora da ufal. “Fiquei muito feliz com a aprovação máxima do projeto. Precisei refazer o projeto quatro vezes antes de apresentar à banca examinadora. Mas, todo o esforço valeu a pena”.

A banca examinadora foi sugerida pelo orientador de Ismael, professor e doutor Pedro Nunes, pelo fato de os integrantes da mesa serem especializados. Diferente do Cesmac, por exemplo, onde o aluno e o orientador não podem interferir nos nomes da banca examinadora.

Segundo a professora e doutora Clara Suassuna, que participou da banca examinadora do trabalho de Ismael, os alunos não sabem escolher o tema direito, normalmente confundem o tema com o título do projeto. Também, não tem conhecimento técnico do assunto, ou seja, lê pouco sobre o tema e logo fica desesperado achando que quase não têm livros falando sobre o assunto. Para ela, falta iniciativa do aluno. “Para se fazer uma boa monografia o aluno tem que ter tesão, amor e paixão pelo tema”, disse. Segundo a professora, é quase impossível fazer um bom TCC somente em um ano. O ideal é começar no segundo ano do curso para poder ter tempo de desenvolver bem o tema proposto. A professora também orienta cerca de sete trabalhos por ano.

Atualmente, Ismael está cursando jornalismo e já está com idéias para o segundo TCC. Pretende terminar o curso no próximo ano e ter assim, dois cursos superiores em apenas seis anos. Logo após, fazer pós-graduação e continuar firme nos estudos.”

Impressionante como na teoria eu até sei fazer um tcc…. Mas ainda continuo com essa dor de cabeça depois de muitos meses! Aquela velha história: teoria é uma coisa, prática é outra… Mas pelo menos já estou terminando. Atrasadíssimo, é verdade. Desejem sorte e força de vontade pra que eu termine logo essa droga. Não, não quero um trabalho exemplar. Quero só me formar com um trabalho “sarrabuiado” mesmo.

resenha: ilha das flores

Publicado: agosto 11, 2007 em resenha

Rafael Calheiros
Resenha do curta-metragem Ilha das Flores

O documentário “Ilha das Flores”, de Jorge Furtado produzido em 1989, é de uma rara profundidade que exprime toda a banalização a que foi submetida o ser humano, por mais racional que este seja. Um ácido retrato da mecânica da sociedade de consumo. Acompanhando a trajetória de um simples tomate, desde a plantação até ser jogado fora, o curta escancara o processo de geração de riqueza e as desigualdades que surgem no meio do caminho. A lamentável condição de sub-existência dos habitantes da Ilha das Flores deixa as pessoas pasmas. A idéia do curta-metragem é mostrar o absurdo desta situação. Seres humanos que, numa escala de prioridade, estão depois dos porcos. Mulheres e crianças que, num tempo determinado de cinco minutos, garantem na sobra dos porcos (que por sua vez, alimentam-se da sobra de outros seres humanos com condições financeiras de escolher o alimento) sua alimentação diária.

A obra Ilha das Flores é rica em informações reais (às vezes chega a ter um caráter didático), e ao mesmo tempo, segue a trajetória fictícia de um tomate: plantado, colhido, vendido a um supermercado, comprado por uma dona-de-casa, rejeitado na hora de fazer um molho para o almoço, jogado no lixo, levado para a Ilha das Flores, rejeitado pelos porcos, e finalmente, encontrado por uma criança com fome.

A desigualdade social e toda perversidade de um sistema são provocadas justamente por seres humanos que procuram viver em seus casulos de forma egocêntrica e egoísta, fingindo não ver a realidade da exploração do homem sobre o homem, esquecendo-se da solidariedade e afeto entre seus semelhantes. Daí a afirmação no início do curta da não-existência de Deus. Infelizmente, explorar a miséria humana faz parte desse sistema, faz parte do “progresso natural da sociedade”. Uma prova disso é que o diretor não precisava ir tão longe para ver a crueldade e a miséria do homem, bastava colocar uma câmera em sua janela de casa.

A noção de progresso é o anteparo usado pelo filme para estabelecer propositalmente uma relação insolúvel na sociedade capitalista. A capacidade criativa e o decorrente progresso são conjugados com os diversos aspectos que envolvem a vida em sociedade. O lixo é capaz de unir- e não separar como normalmente – a “parte limpa” com a “parte suja” do filme. Logo, confirma-se uma incompatibilidade entre progresso e desenvolvimento humano. O espectador sente o sabor da simples profundidade sugerida pelo filme. É uma provocação ao raciocínio social imediato, à propriedade privada, ao lucro, ao trabalho, à exploração, à relação entre progresso criativo e, conseqüentemente, tecnológico (criação e evolução estão intimamente ligados) e ao desenvolvimento social e humano. Passados quase vinte anos após a sua produção, o curta ainda é bastante atual. O documentário é narrado pelo ator Paulo José e foi aclamado pela crítica, vencendo vários prêmios.

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resenha: 1984

Publicado: agosto 7, 2007 em resenha

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Rafael Calheiros
Resenha do livro 1984 de George Orwell

 

“1984”, a magnífica obra de George Orwell, escrito em 1948, fala de um mundo dominado pelo socialismo totalitário – reflexo do período pós-guerra quando Orwell, se desiludindo cada vez mais com os rumos do “socialismo” de Stalin, escreveu o livro.

A obra retrata o mundo dividido em três grandes superestados: Eurásia, Lestásia e Oceania. Em uma ou outra aliança, esses três superestados estão em guerra permanente. O objetivo da guerra, contudo, não é vencer o inimigo nem lutar por uma causa, mas manter o poder do grupo dominante.

O enredo, sob a perspectiva da Oceania, mostra como o Estado vigia os indivíduos e mantém um sistema político cuja coesão interna é obtida não só pela opressão da Polícia do Pensamento, mas também pela construção de um idioma totalitário, a Novilíngua, que, quando estivesse completo, tornaria o pensamento das pessoas cada vez mais igual e impediria a expressão de qualquer opinião contrária ao Partido. A idéia do idioma é restringir o maior número possível das palavras, de tal forma que não existiria palavras para expressar oposição ao Partido e ao Big Brother – o Grande Irmão.

A característica principal de “1984”, talvez seja o duplipensar, que consiste basicamente em se ter duas idéias contrárias, opostas, e aceitar ambas como verdade. Essa característica fica evidente quando se conhece os três lemas do Estado: Guerra é Paz; Liberdade é Escravidão; Ignorância é Força.

O duplipensar fica ainda mais evidente quando conhecemos os nomes dos Ministérios: O Ministério da Fartura, que é encarregado de manter a fome para a prole e membros do Partido Externo, ocultando a baixa produtividade e a péssima distribuição de alimentos sob falsas estatísticas; o Ministério da Verdade, onde trabalhava o protagonista da história Winston Smith, que tem o dever de manipular fraudulentamente as notícias, levando os cidadãos à crença somente do que lhes é permitido, mudando constantemente o passado para que o Grande Irmão estivesse sempre certo; o Ministério da Paz, que se ocupa em engendrar a guerra, levantando a estima dos cidadãos com notícias sempre positivas da guerra; e o Ministério do Amor, que reprimia o sexo e estimulava o ódio entre as pessoas, para que o amor se dirigisse apenas ao Grande Irmão. O Ministério do Amor também se encarregava de capturar, torturar, punir, reeducar e vaporizar quem cometesse crimidéia através da Polícia do Pensamento. 

O objetivo do Partido era suprimir a individualidade com o propósito de destinar toda a vida dos cidadãos aos seus interesses. Para manter a população entorpecida e influenciada eram freqüentes os eventos com fachadas políticas e patrióticas. Os “Dois minutos do ódio” e as semanas especiais faziam as pessoas esquecerem suas vidas e amar apenas ao Grande Irmão. Aquele que não participasse era acusado de cometer crimidéia – ou idéias ilegais para o Partido, e, portanto um perigo à segurança nacional. O destino para os que fossem acusados de cometer crimidéia era o mesmo: ser vaporizado e virar impessoa, ou seja, o Estado apagaria todos os registros daquela pessoa como se ela nunca tivesse existido. Não tratava apenas de eliminar alguém que cometesse algum crime, mas fazer com que ela nunca tivesse nascido.

Orwell compõe com brilhantismo uma “utopia negativa” onde os cidadãos são vigiados todo o tempo em todo lugar pelas teletelas (aparelhos que transmitem e captam som e imagem) sob a liderança do Partido e do Grande Irmão. Em todos os lares dos membros do Partido, praças, ruas e locais públicos, as teletelas transmitem a ideologia do Partido. Mais do que isso, captam todos os movimentos de seus filiados.

Onipresente, o Grande Irmão é visto em cartazes espalhados por toda a Oceania. Apesar de estar sempre presente, ele jamais apareceu em público. O Grande Irmão talvez não seja uma pessoa real, pois ninguém nunca o viu. Mas o slogan do Partido “O Grande Irmão zela por ti”; seus feitos nas guerras; seu trabalho duro para melhorar a condição de vida do povo da Oceania; e sua liderança firme e constante nas propagandas do Partido, conduz o povo da Oceania a acreditar na sua presença e existência. A eficiência do Partido é maior: faz com que o povo não só acredite na existência do Grande Irmão, mas o ame e o idolatre. Em um mundo onde o Estado domina e nada é de ninguém, mas tudo é de todos, talvez, tudo que reste de privado seja alguns centímetros quadrados no cérebro.

1984 não é apenas mais um livro de política, mas uma metáfora de uma realidade que inexoravelmente estamos construindo. Para exemplificar, invasão de privacidade; avanços tecnológicos que propiciam vigilância total; destruição ou manipulação da memória histórica dos povos; e guerras para assegurar a paz já fazem parte do nosso mundo. Até onde a ciência pode atingir? E até onde um governo pode usar a tecnologia para manter a paz em seu país? A importância de se ler Orwell desperta o leitor para essas questões. Se a nossa realidade global caminhar para o mundo antevisto em 1984, o ser humano não terá nenhuma defesa.