resenha: 1984

Publicado: agosto 7, 2007 em resenha

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Rafael Calheiros
Resenha do livro 1984 de George Orwell

 

“1984”, a magnífica obra de George Orwell, escrito em 1948, fala de um mundo dominado pelo socialismo totalitário – reflexo do período pós-guerra quando Orwell, se desiludindo cada vez mais com os rumos do “socialismo” de Stalin, escreveu o livro.

A obra retrata o mundo dividido em três grandes superestados: Eurásia, Lestásia e Oceania. Em uma ou outra aliança, esses três superestados estão em guerra permanente. O objetivo da guerra, contudo, não é vencer o inimigo nem lutar por uma causa, mas manter o poder do grupo dominante.

O enredo, sob a perspectiva da Oceania, mostra como o Estado vigia os indivíduos e mantém um sistema político cuja coesão interna é obtida não só pela opressão da Polícia do Pensamento, mas também pela construção de um idioma totalitário, a Novilíngua, que, quando estivesse completo, tornaria o pensamento das pessoas cada vez mais igual e impediria a expressão de qualquer opinião contrária ao Partido. A idéia do idioma é restringir o maior número possível das palavras, de tal forma que não existiria palavras para expressar oposição ao Partido e ao Big Brother – o Grande Irmão.

A característica principal de “1984”, talvez seja o duplipensar, que consiste basicamente em se ter duas idéias contrárias, opostas, e aceitar ambas como verdade. Essa característica fica evidente quando se conhece os três lemas do Estado: Guerra é Paz; Liberdade é Escravidão; Ignorância é Força.

O duplipensar fica ainda mais evidente quando conhecemos os nomes dos Ministérios: O Ministério da Fartura, que é encarregado de manter a fome para a prole e membros do Partido Externo, ocultando a baixa produtividade e a péssima distribuição de alimentos sob falsas estatísticas; o Ministério da Verdade, onde trabalhava o protagonista da história Winston Smith, que tem o dever de manipular fraudulentamente as notícias, levando os cidadãos à crença somente do que lhes é permitido, mudando constantemente o passado para que o Grande Irmão estivesse sempre certo; o Ministério da Paz, que se ocupa em engendrar a guerra, levantando a estima dos cidadãos com notícias sempre positivas da guerra; e o Ministério do Amor, que reprimia o sexo e estimulava o ódio entre as pessoas, para que o amor se dirigisse apenas ao Grande Irmão. O Ministério do Amor também se encarregava de capturar, torturar, punir, reeducar e vaporizar quem cometesse crimidéia através da Polícia do Pensamento. 

O objetivo do Partido era suprimir a individualidade com o propósito de destinar toda a vida dos cidadãos aos seus interesses. Para manter a população entorpecida e influenciada eram freqüentes os eventos com fachadas políticas e patrióticas. Os “Dois minutos do ódio” e as semanas especiais faziam as pessoas esquecerem suas vidas e amar apenas ao Grande Irmão. Aquele que não participasse era acusado de cometer crimidéia – ou idéias ilegais para o Partido, e, portanto um perigo à segurança nacional. O destino para os que fossem acusados de cometer crimidéia era o mesmo: ser vaporizado e virar impessoa, ou seja, o Estado apagaria todos os registros daquela pessoa como se ela nunca tivesse existido. Não tratava apenas de eliminar alguém que cometesse algum crime, mas fazer com que ela nunca tivesse nascido.

Orwell compõe com brilhantismo uma “utopia negativa” onde os cidadãos são vigiados todo o tempo em todo lugar pelas teletelas (aparelhos que transmitem e captam som e imagem) sob a liderança do Partido e do Grande Irmão. Em todos os lares dos membros do Partido, praças, ruas e locais públicos, as teletelas transmitem a ideologia do Partido. Mais do que isso, captam todos os movimentos de seus filiados.

Onipresente, o Grande Irmão é visto em cartazes espalhados por toda a Oceania. Apesar de estar sempre presente, ele jamais apareceu em público. O Grande Irmão talvez não seja uma pessoa real, pois ninguém nunca o viu. Mas o slogan do Partido “O Grande Irmão zela por ti”; seus feitos nas guerras; seu trabalho duro para melhorar a condição de vida do povo da Oceania; e sua liderança firme e constante nas propagandas do Partido, conduz o povo da Oceania a acreditar na sua presença e existência. A eficiência do Partido é maior: faz com que o povo não só acredite na existência do Grande Irmão, mas o ame e o idolatre. Em um mundo onde o Estado domina e nada é de ninguém, mas tudo é de todos, talvez, tudo que reste de privado seja alguns centímetros quadrados no cérebro.

1984 não é apenas mais um livro de política, mas uma metáfora de uma realidade que inexoravelmente estamos construindo. Para exemplificar, invasão de privacidade; avanços tecnológicos que propiciam vigilância total; destruição ou manipulação da memória histórica dos povos; e guerras para assegurar a paz já fazem parte do nosso mundo. Até onde a ciência pode atingir? E até onde um governo pode usar a tecnologia para manter a paz em seu país? A importância de se ler Orwell desperta o leitor para essas questões. Se a nossa realidade global caminhar para o mundo antevisto em 1984, o ser humano não terá nenhuma defesa.

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comentários
  1. Angelo disse:

    se importa se eu postar a sua resenha em meu blog, devidamente crditado?
    muito boa, por sinal

  2. […] o artigo a seguir em um Site, adorei o livro e postarei algumas considerações minhas, provavelmnete no final de semana… […]

  3. luiza disse:

    excelente resenha, te citei no meu trabalho de Politica 3!

  4. Valder disse:

    Ótima resenha. Usei parte dela em meu trabalho de sociologia, mas devidamente creditado.

  5. Leandro Loan disse:

    Boa resenha, hein! Valeu!

  6. Carlos A Pinto disse:

    Parabéns. Pelo visto você não é um petralha.

    • Cristovam Ruiz Jr disse:

      Hahahaha…Ai meu Deus! O que tem a ver gostar de 1984 e ser um petista? Minha orientação política é de esquerda e gosto muito desse livro, até porque o que está em jogo aí não é o fato de um regime ser capitalista ou socialista, mas sim totalitário. Se liga!!!

  7. Sameach disse:

    Muito boa resenha! este modo de penssar de Orwell escrito em seu livro, já é uma realidade virtual em nossos dias.
    Tenho acompanhado de perto, como isso é uma realidade, breve todo o mundo será vítimado por esse imperialismo politico técnologico.
    “Nós, sempre estamos sendo vigiados, não durma.”

  8. […] [1] Resenha livro 1984 – George Orwell […]

  9. […] provar que fez a lição de casa direito e que sabe tudo sobre Orwell, em suas menções óbvias a 1984, e Aldous Huxley e seu Admirável Mundo […]

  10. RC disse:

    muito boa a resenha claramente entendi melhor o livro e usei alguns de seus conceitos( tudo creditado obviamente)

  11. Yuri disse:

    É meu caro, sua resenha estar ótima! Parabéns pela produção textual.
    Esse livro é realmente mostra um realidade…

  12. gabriel jhony disse:

    o livro é interessante. é pra quem quer e não pra quem pode

  13. Israel Shamir disse:

    De mais…a crítica no último parágrafo foi muito bem exposta! Parabéns…!!!

  14. Diógenes Moraes disse:

    Excelente a sua resenha. Parabéns. George Orwell é fascinante. Todo ser humano precisa ler 1984 e A revolução dos bichos. Ótimos comentários! Muito bom!

  15. davi disse:

    A realidade é mais incrivel do que a ficção, portanto não há surpresa nenhuma quando observamos os indicios de que a nossa sociedade esta caminhando para o que foi predito por Orwell.

  16. Maroto disse:

    Simplesmente magnífico! Me ajudou bastante no entendimento desta estupenda obra de Orwell. Obrigado.

  17. Danilo Essu disse:

    Cara, muito bom., vou até começar a acompanhar seu blog.

  18. Bruna disse:

    Bom. Mas deves dar crédito ao comentário contido na contra capa do livro, já que o mesmo está devidamente copiado.

  19. Renato Silva disse:

    Um mundo como este é o objetivo do PT.

  20. allynne disse:

    muito boa resenha ,este livro é ótimo, fiquei impressionada como o que Orwell preveu parece ser o que acontecerá na realidade.

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