resenha: a arte da palavra

Publicado: agosto 16, 2007 em resenha

Rafael Calheiros
Resenha do livro História Universal da Eloqüência de Hélio Sodré

A palavra é uma arma acessível a qualquer homem. Independente de credo, raça, sexo ou condição social. Sua onipotência existe desde o que chamamos de história e resiste, firme e forte, até os dias atuais. Foi fundamental em momentos críticos da história conhecida e contada pelo homem, mudou rumos, criou verdades e mentiras, imortalizou deuses e heróis como enterrou vilões e covardes. Foi a palavra que informou e manipulou o homem, com o passar dos séculos. E ainda engana. É uma arma poderosa, estridente. Completo afirmando que é uma arma acessível a qualquer homem desde que o mesmo aceite o hercúleo desafio de manuseiá-la, dominá-la. Poucos se dedicam a esse árduo, mas proveitoso, trabalho. A palavra é tão poderosa que, com um simples disparo, pode destruir um ser. Aniquilar para sempre qualquer um que duvide de seu poder. Nada de quebrar ossos, deixar hematomas ou dilacerar a pele. Seu poder é maior. Invade o corpo e atinge a mente. A alma. Transforma o pobre ser, vítima do disparo, em homem-zumbi incapaz de se reerguer perante a sociedade e as futuras gerações.

Quem faz história são as pessoas que a escrevem (talvez a seu bel-prazer, já que a história é escrita pelos vencedores); que documentam os fatos. A arte da palavra faz com que conheçamos interpretações do nosso passado. Ter história. Verdadeira ou não, mas ter história. Sem a palavra escrita, documentada, o passado seria uma incógnita. E o presente, primitivo. Já que aprendemos com os erros dos nossos ancestrais para evoluir. E evoluímos, seja na ciência, espírito ou comportamento social, graças aos antepassados.

A palavra é arte, de onde deriva a literatura, outra arte. Aí entram em cena os escritores e oradores. É evidente que ao falar-se de literatura, não se pode considerar nem a fala usual, nem a escrita corriqueira. A literatura é a arte de criar beleza por meio da palavra, como diria Hélio Sodré – autor do célebre ‘História universal da eloqüência’.

Se a palavra escrita fica eternizada em livros e um grande número de pessoas pode ter acesso, a palavra falada é a mais poderosa. “O estudo dos livros é uma atividade fraca e repousada que não entusiasma, ao passo que a discussão ensina e exercita ao mesmo tempo”, disse Montaigne. A eloqüência lida com a voz e com os gestos. Por isso é a mais viva e a mais mortal das artes. A mais viva porque é palavra, voz e gesto. Quando bem usada empolga multidões. A mais mortal porque os oradores levam consigo, para o túmulo, dois dos seus requisitos primordiais: a voz e o gesto. Mas, que importa que a eloqüência é a mais mortal das artes se, quando em ação, nenhuma outra consegue sobrepujá-la?

Toda arte sugere, comunica, convida. Mas, a eloqüência impõe. O efeito das outras artes é lento, o da oratória imediato. Um livro age vagarosamente; a eloqüência, vertiginosamente. Usando mais uma vez as brilhantes palavras de Hélio Sodré: “Um livro – palavra escrita – pode gerar uma revolução. Mas a eloqüência – palavra falada – pode desencadear a revolução”. E isso porque a eloqüência não se satisfaz, apenas em expressar um sentimento ou traduzir uma idéia. Seus objetivos são maiores. Além de expressar, aspira convencer e persuadir. O orador perfeito deve reunir em si, não só as qualidades de filósofo, mas também as do poeta e as do ator. Poeta, para deleitar e comover, falando ao coração e ao sentimento. Filósofo, para instruir e convencer, falando à razão e ao entendimento. E ator, para dar vida e vigor às suas palavras.

É quase impossível não admirar um discurso eloqüente. Cometendo o sacrilégio de ‘tomar as palavras emprestadas’, exemplifico com o belo discurso de Caio Graco – notável tribuno da Roma Antiga – que antes de defender uma causa perdida, ganhou o público com sábias palavras: “Cidadãos, se sois inteligentes e honestos, não encontrareis, entre nós, um único que fale sem esperança de recompensa. Todos os oradores querem conseguir qualquer coisa. Eu próprio, que vos falo, e falo para acautelar os vossos interesses e aumentar os vossos rendimentos, também não o faço desinteressadamente. Simplesmente, não espero de vós dinheiro, mas sim atenção e aplauso!”. Só para constar, Caio Graco – jovem orador romano, em um dos seus primeiros discursos – ganhou a causa. Talvez tenha se saído muito bem por ter feito uma boa introdução. Ganhou o respeito dos concidadãos, e se sentiu a vontade no tribunal.

Para finalizar esse breve elogio à palavra, cito Victor Hugo: “Uma palavra caída de uma tribuna cria sempre raízes em alguma parte. Dizeis: não é nada, é um homem que fala. Encolheis os ombros. Espíritos de curto alcance! Dizeis que não é nada e é um futuro que germina, é um mundo que desabrocha!”

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