contos: histórias do meu Rio Grande

Publicado: janeiro 3, 2008 em contos

O dia que eu quase fui conversar com Deus foi o mesmo dia que o Capitão nascimento pediu autógrafo pro Marcelo D2

O HD é um cara gente-boa. o irmão do HD também é um cara gente-boa. Mas eles eu já conhecia antes de ir pro Rio Grande. Quem eu não conhecia era o Viagra. O Viagra também é um cara muito gente-boa. Não me perguntem porque chamavam o Viagra de Viagra. Eu não sei, mas posso imaginar. E vocês também podem imaginar. E eu nem perguntei pra ele porque era Viagra. Sabem como é né… homem normalmente é sacana. Eu imaginei que poderia ficar numa “sinuca de bico” e ser sacaneado na frente de todos. Sem, ao menos, ter uma resposta digna para reverter a situação. E um homem sem uma resposta pronta para reverter alguma situação vira chacota dos outros. E eu, definitivamente, não queria ser motivo de chacota.

Mas a história do Rio Grande não é sobre o Viagra, apesar dele ter participado ativamente (sem trocadilhos, por favor). A história é de como as coisas funcionam por lá. Bem… é claro que eu queria curtir a cidade. E que queria beber e tirar muita onda. “Ora! Não sou daqui e nem vim pra ficar. Quero é desmoralizar esse ambiente aqui. O máximo que eu puder!” E não é de se espantar que eu passei 80% bêbado do tempo que fiquei no Rio Grande. Os outros 20% eu passei dormindo. Pois bem, estávamos hospedados na casa do nosso amigo Ciço Bandêra. E ele estava numa semana muito corrida. Formatura, baile, missa, noivado, apresentação do TCC do primo e… cuidando dos hóspedes. É óbvio que ele num é de ferro. E tínhamos que dar uma trégua pro nosso pobre amigo Ciço Bandêra. Então fomos obrigados a mudar de guia turístico. Eis que surge a figura do Viagra.

Logo ele, “o mais esculhambado da festa”, como uma prima do Ciço Bandêra sabiamente mencionou. Eu que já estava muito biritado só fazia rir de tudo e de todos. O HD era o mais biritado. Já tava pra lá de Vladivostok. E bêbados, sabe como é né. Têm idéias absurdas e pensam que são brilhantes. Pois bem, a idéia brilhante foi de sairmos de carro para curtir uma na night. Depois de muita luta para nos liberarem – devido ao estado alcoólico da gente, saímos nós quatro. Eu, HD, irmão do HD e Viagra. O Viagra, além de guia turístico, era nosso motorista, nossa babá e, nessa altura do campeonato, nosso mais querido irmão. Bebemos mais. Fomos na Farrapos, desmoralizamos um pouco com a Priscila (essa já é outra história…) e fomos conhecer mais alguns lugares. Cruzamos a Oswaldo Aranha em frente ao parque Farroupilha. E estávamos no carro (com o Viagra dirigindo) falando num sei o quê sobre drogas, prostituição, canalhices… E estávamos rindo muito. E bebendo muito. Aí foi quando eu comecei a ver como as coisas funcionavam no Rio Grande.

Eu, biritado e morrendo de sono, percebi que o Viagra ficou perturbado. Olhei pro irmão do HD que estava no banco da frente do Uno Mille e percebi que ele também estava perturbado. Quando olho pelo vidro de trás do carro com fumê 100%, vejo umas luzes piscando e escuto as sirenes. Era “os hômi”. Pensei na hora: “Puta que pariu, fudeu!”. O Viagra foi obrigado a encostar o carro porque os caras da Brigada mandaram, gritando alto o suficiente para nós ouvirmos em alto e bom som.

– Pára o carro! Pára o carro agora! Pára, pára. Pára porra!

Os impacientes da Brigada já tinham emparelhado o carro apontado as armas pra gente. E eu num sabia direito o que tava acontecendo. Me disseram que a Brigada lá é o mesmo nome do Bope aqui. Parece que eles conservam esse nome do tempo da Guerra dos Farrapos.. Só que o HD num sabia disso. O HD num sabia era porra nenhuma do que tava acontecendo. Já tinha desmoralizado muito e tava dormindo no banco de trás do carro. Mas, foi obrigado a acordar. Que infeliz hora pra acordar. Infeliz pra gente. Acordou e voltou a esculhambar.

– Que merda é essa? – Gritou o HD.
– Cala a boca, velho! São os “hômi”, porra! –
Eu sussurei no ouvido dele.
– Que hômi de quê? –
Sem saber o que estava acontecendo ainda…
– Puta merda. Tamo fudido, véi! Tamo fudido! –
O pânico já havia tomado conta de mim. Afinal de contas, sou um medroso nato.
– Aí gente, fiquem caladinhos aí. Deixe que eu resolvo, beleza? –
ordenou o Viagra, não menos assustado que nós. mas sóbrio o suficiente pra tentar argumentar alguma coisa.

Nisso, os homens desceram do carro. Armado até os dentes. Sem nenhuma cordialidade. Também pudera: quatro elementos num Uno Mille desmoralizando às 2h da manhã num dia de quinta-feira não exigia cordialidade de forma alguma. Mas ao mesmo tempo eu pensava: “Num pode ser tão ruim assim? Num fizemos nada de errado…”. Nada de errado, uma teta. O Viagra e o HD tinham fumado um in nature, estávamos com bebidas alcoólicas dentro do carro e desmoralizamos há pouco tempo a Priscila lá na Farrapos. Tentava me enganar, mas não tinha jeito: fizemos merda e estávamos fudidos. Descemos do carro para um baculejo. Quatro caras da Brigada. Um com uma escopeta, dois com uma sub-metralhadora e um com uma pistola. E mais uma vez eu pensei: “É, agora fudeu de verdade! Puta que pariu!”. Como foi dito, o Viagra era o mais sóbrio. Ele tratou de tentar explicar a situação. Mas quem disse que a vida é fácil? “Os hômi” não queriam escutar nada e mandou o pobre do Viagra calar a boca. A essa altura meu álcool já tinha passado e minhas calças estavam borradas. Pudera. E o HD, continuava sem saber o que porra tava acontecendo…

“Os hômi” mandaram a gente se encostar na parede e colocar a mão na nuca enquanto um revistava o carro. A fila na parede na ordem: Viagra, eu, irmão do HD e o HD. E o HD começou a resmungar e depois a falar, cambaleando nas palavras:

– Mas são uns filha da puta mesmo! O cara num pode nem beber e desmoralizar nessa porra de cidade.
– Fica na tua, porra. – balbuciou o irmão do HD.
– Fico porra nenhuma! Esses cara devem ser de Pelotas. Fica com essas merdas de armas pra fazer medo na gente. Só pra ficar alisando a gente! Nessa terra só tem baitola mesmo! Você viu o tamanho da escopeta? Se vier aqui vai ter porrada.

E eu rezando, em silêncio, pedindo aos céus, que os quatro da Brigada fossem surdos. Infelizmente, não eram. Enquanto isso o Viagra continuava na sua tentativa de argumentar alguma coisa com algum policial que só fazia cara de mau e fingia que num escutava porra nenhuma, enquanto fazia o baculejo.

Quando o HD falou isso eu fechei o olho esperando o balaço na cabeça. Era tirar onda demais com “os hômi”. Pra eles não teria problema nenhum mandar quatro bêbados pra “Terra dos Pés juntos”. A única coisa que pensei foi: “Na cara não, pra num estragar o velório…”. Mas aí aconteceu aquelas coisas maravilhosas de Deus. A essa altura eu já tinha me convertido a católico, budista, protestante, judeu, islâmico… Era uma ótima hora pra acontecer um milagre. Não sei o porquê, mas depois que o HD falou aquilo teve um silêncio longo e tenebroso. Aí o cara que tava com a escopeta começou a rir. Rir de verdade. Gargalhar. E os outros começaram a rir também. Ora três moreninhos (um cabeludo e barbudo) e um branquelo cabeludo. Sem falar que os morenos falavam engraçado. Com um sotaque bem carregado. Típico do Nordeste.

– Mas bah, eu tô reconhecendo esse guri. – comentou um policial.
– Sim! É verdade tchê! Mas num é o Marcelo D2! – confirmou o outro policial da Brigada.
– Sim, sim! Ele mesmo!
– Mas eu não sabia que o Marcelo D2 era do Nordeste, tchê.
– Bah! Na televisão ele nem aparece com o sotaque. E ele é menos feio do que pessoalmente.
– Deve ser porque está sem maquiagem, tchê. Esses artistas são tudo louco.

E eu num tava entendendo porra nenhuma, mas tava aliviado. É que dizem que o HD tem um rosto muito louco. Se uma pessoa gosta de rock melancólico vai achá-lo com a cara do Renato Russo, se gosta de rock revolucionário, vai achá-lo com a cara do Raul Seixas e se gosta de Hip-Hop, vai achá-lo com a cara do Marcelo D2. Para nossa sorte o Hip-Hop tava em alta no Rio Grande e “os hômi” curtia muito. Nisso, chegou o quarto policial que estava revistando o carro.

– Pode liberar, num são eles não.
– Claro que num é! Aqui é o carro do Marcelo D2! Vou até pegar um autógrafo pra dar pro meu guri.

E então começamos a nos sentir aliviados. E o Viagra não precisou mais tentar argumentar alguma coisa. O policial brigou com a gente querendo saber porque não tínhamos dito que era da banda do Marcelo D2. Que se tivéssemos dito, liberava na hora. E o Viagra, que tem um ótimo poder de persuasão, lembrou que o policial da sub-metralhadora não tinha deixado ele falar porra nenhuma. Por uma coincidência incrível, que uns adoram dar o nome de destino, iria ter um show em Porto Alegre do Marcelo D2 naquele final de semana.

Parece que o HD tinha recuperado a consciência e não esculhambou mais os policiais. Mas decidiu entrar no jogo de Marcelo D2. Perguntou o nome do filho do policial que gostava de Hip-Hop e disse que ia dar uma autógrafo especial pra ele. O policial ficou todo bobo. Rindo e com um brilho no olhar de que realmente estava feliz de estar naquele momento, naquele lugar com a gente: a banda do Marcelo D2. Enquanto o HD rabiscava num pedaço de papel que o Capitão Nascimento (a essa altura ele já tinha dito o nome dele, do filho dele e do pessoal. E que coincidência! Um Capitão Nascimento pra aterrorizar a cidade!) deu pra ele, o Goulart (nome do policial da pistola) estava nos explicando que há pouco tempo havia acontecido um assalto a mão armada. E que os suspeitos eram quatro e tinham fugido num Uno Mille com vidro fumê. Era coincidência demais para um medroso numa única noite.

O Capitão Nascimento pediu desculpas pra gente e nos liberou. A gente desejou boa sorte na caçada e fomos embora. Ainda meio assustados, mas já aliviados. Decidimos terminar de beber em casa. Foi emoção demais pra quem está acostumado com uma vida pacata. Vai que em outra blitz dessa o cara não goste muito de escutar músicas…

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comentários
  1. Kika disse:

    uAHuhauHA… Muito engraçado!!! Só v6 mesmo pra passar por uma dessas… e só o HD pra fazer o que faz!!

  2. emanuellevanderlei disse:

    ai ai… essa trip já rende história…kkkkkk

  3. Thácia disse:

    Quanto susto para um dia só!!

  4. projetodesorientado disse:

    “E eu rezando, em silêncio, pedindo aos céus, que os quatro da Brigada fossem surdos”

    meu amigo… que situação ein!

    como não foi trágica eu posso dizer que foi cômica!

  5. Carol disse:

    faz tempo que eu não passo aqui!
    hahahaha muito boa essa história!! é verídica?
    nunca tinha ouvido a gíria “desmoralizar”, me lembra as gírias do laranja mecânica!

    ficou muito bom mesmo esse texto!

    bjs!

  6. Renatão disse:

    Só fiquei aqui imanginando a cara de Renato Russo+Raul Seixas+Marcelo D2!

  7. Ricardo disse:

    Baseado em fatos reais, heim??

    Ri pra cacete…Qdo escrever outra do mesmo gênero me avisa 😛

  8. Viagra disse:

    60% verdade!!

    palavra de chapolin colorado

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