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crônica: zezinho trabalho

Publicado: junho 6, 2008 em crônica

Essa é a estória do Zezinho Trabalho. Um cara simples, humilde, alegre e que adora trabalhar. Claro, com o nome desses tinha que adorar trabalho. Não é em vão que colocaram esse apelido nele. Morava com sua mãe já idosa e com problemas de saúde. E Zezinho fazia de tudo pra ajudar sua mãe: a pessoa que ele mais admirava na face da Terra. Ela teve uma vida sofrida, corrida, vivida… Criou Zezinho com muita dificuldade. Moravam na periferia, num casebre bem humilde onde era dureza de se morar. É, Zezinho. Duro é viver. Mas, como todo ser humano, se adequou ao ambiente e, mais que isso: gostava do lugar. Quando tinha um tempinho, falava com o dono da padaria, jogava futebol com os amigos de bairro, conversava com os vizinhos e ia pra frente do salão de beleza admirar sua musa que trabalhava lá… Uma moçoila linda e trabalhadora. Gostava de roupas claras e compostas e sempre tinha um penteado da moda. Afinal de contas, entendia do assunto.

Bem, voltemos ao Zezinho Trabalho. E quanto trabalho, hein Zezinho! Mas ele num liga pra tanto trabalho. Como já disse, até gosta de ter muita coisa pra fazer. Pra ele é um hobby. E tenta contagiar seu ambiente de trabalho com sua simpatia. E conta histórias, piadas, e conversa muito. E fala da mulher gostosa que passou, das palavras arrogantes que o chefe proclamou, do veneno mortal que a ambiciosa novata destilou, das blasfêmias que um incrédulo profanou… E conversa muito. E os amigos escutam suas palavras extasiados. De fato, é um contador de histórias nato. “Conta mais Zezinho! Conta aquela história do menino que num falava a letra C!”. E Zezinho contava. E todo mundo se acabava de rir. “Como é engraçado esse Zezinho!”.

Mas, acabava aquela hora do cafezinho. E Zezinho voltava pro trabalho. Pegava sua ferramenta e passava pra lá e pra cá… e limpava aqui, e limpava ali e adorava limpar e adorava trabalhar. E assim Zezinho fazia, todos os dias o dia todo. Durante anos foi um trabalhador exemplar. Nunca se atrasava, trabalhava sorrindo, falava com todo mundo, e era impecável no seu serviço.

Mas, duro é viver. E a mãe do Zezinho piorou. E ele precisou faltar alguns dias no trabalho para cuidar da mãe. E ficava desesperado sem saber o que fazer com o absurdo de caro, aqueles remédios que o doutor passou. E pedia ajuda para os amigos, e vendia suas coisas, e enfrentava filas quilométricas nos hospitais…

Aí Zezinho foi convidado a se apresentar ao trabalho. Chegando lá, foi informado que não pertencia mais ao seleto grupo de trabalhadores de lá. Não adianta, Zezinho. Não adianta chorar e se desesperar. Eles não têm coração mesmo. Não importa seus anos de assiduidade, de trabalho competente, de sua alegria contagiante. Não adianta Zezinho. Não adianta se sua mãe ficou doente e precisa de você perto dela. “Precisamos de alguém que cumpra os horários assiduamente, e você já não pode preencher todos os requisitos”. E a empresa que Zezinho trabalhava ficou sem as famosas histórias que ele contava. O cafezinho ficou frio.

No habitat natural do ser humano, vale a lei da sobrevivência. E a lei da sobrevivência é isso: “primeiro eu depois os outros”. Sempre foi assim e continuará sendo durante um bom tempo. Não importa o que você faça, nunca reconhecerão seu trabalho. Aliás, importa sim: faça alguma besteira. Sua cabeça será pedida sem cerimônias.

Zezinho aprendeu isso da pior forma. Agora era um homem sem sorriso, sem esperança, sem emprego… E, o pior de tudo, sem mãe. Dona Maria não teve como comprar os remédios caros com sua mísera aposentadoria e não resistiu. E quem vê aquele senhor de barbas longas e sujas, de trapos fedidos, de rosto desconfiado e triste, de olhos amargurados, de cuia na mão… Não desconfia que ele já foi o Zezinho Trabalho que andava, sorria e contagiava as pessoas. Agora, mora na rua. E aquela sombra do Zezinho sorridente deu lugar ao velho moribundo….

Duro é viver.

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crônica: o folião infeliz

Publicado: dezembro 25, 2007 em crônica

Essa é a história de um jovem folião. Sim, um jovem. Com coração bom. Um folião que adorava folia. Evidente, oras! Um folião que passeava de noite e dormia de dia. Portanto, um folião boêmio. Sabia de tudo que acontecia em sua cidade. Sabia das festas. Dos melhores bares. Das melhores boates. Sabia qual era o melhor dia de sair e o melhor dia de ficar em casa. Sabia das melhores bebidas. Das melhores comidas. Dos lugares pra paquerar e dos lugares pra relaxar. Era um folião-boêmio informado. Que fazia o que gostava… E sabia fazer muito bem! Fez o dever de casa. Um folião bonito. E muito simpático. E bem relacionado também. Ué, um folião desses como pode ser infeliz? Como pode ser infeliz um folião desses? Eu sei que pode. Mas ainda não está na hora. Continuemos a história do nosso folião-boêmio-informado e, agora, bonito. O folião não gostava de ficar em casa. Saía sempre. Ia para grandes shows. Freqüentava salas VIP’s. Pulava carnaval com o povão. Viajava para muitos lugares. Era muito fiel aos seus amigos. Não há quem não gostasse dele. E procurava. Ia para todos os lugares para procurar. E procurava… E procurava… E nunca achava.

E lá estava ele denovo. Procurando. E lá estava ele denovo. Numa grande festa. Numa festa da High Society. Falando com todos. E todos falando com ele.  Era simpático e bonito, como já foi dito. Seu sorriso era cativante. Seus gestos bem educados e ensaiados. Sua roupa era elegante. Seus cabelos negros, arrumados. Impecável. Muitas mulheres falavam com ele. E até esperavam que ele fosse para as festas. Era desejado pelas moças e invejado pelos rapazes. Todos queriam estar perto dele. Tirava fotos. Saía nas principais colunas sociais. Conhecia bons partidos. Mas não achava. E procurava… e não achava…

E ia para as festas. Andando… Vagueando… Procurando… Procurando um amor. Procurando a sua vida. Procurando a felicidade. Procurando por ela: Sofia. O nosso folião protagonista era simpático e bonito, tinha um sorriso cativante. Gestos bem educados e ensaiados. Roupa elegante. Cabelos negros, arrumados. Mas seus olhos não brilhavam. Não tinha o brilho de quem é feliz e ama viver. Era um olhar angustiado. De quem procura. Um olhar triste de quem procura e nunca acha. Sofia havia desaparecido de sua vida por mais de 10 anos. Ele nunca superara. E, na verdade, nunca tivera Sofia. Nunca tivera a coragem de confessar seu amor puro e sublime para Sofia. Ele nunca esquecera aquele único encontro que tiveram. Por acaso. Quando se conheceram. Teve a oportunidade de falar com ela. Trocaram algumas palavras… E ele nunca mais foi o mesmo. E sofreu desde então. Não se faz necessário dizer o conteúdo da conversa dos dois. Apenas que ele nunca esquecera Sofia. Logo ele! Que nunca acreditara em amor. Ainda mais à primeira vista! Mas nosso protagonista sabia que perdera a oportunidade de sua vida. Sabia que a vida era feita de pequenas atitudes. E que poderia ser mudada em frações de segundo. Sabia que, na verdade, a vida era feita dessas pequenas atitudes e só. Nunca pensara em grandes atitudes. Mas perdera.

E procurava…  E procurava… E freqüentava as festas. E continuava com seus gestos robustos e ensaiados. Mas sem brilho no olhar. E invejava os casais que riam e se amavam nos bancos da praça. E ele chorava. Chorava muito. E dormia. Dormia de dia com a ajuda dos remédios. E dormia de dia para não ver essas coisas. Tudo que ele invejava. E de noite saía. E procurava…

crônica: era uma vez

Publicado: agosto 19, 2007 em crônica

Era uma vez um homem capitalista. Um homem capitalista num mundo nada socialista. Nem socializável. Era uma vez um porco capitalista. Com as mesmas características que o homem capitalista. Era uma vez uma criança que gostava de pensar. De filosofar. Era uma vez um mestre. Um mestre que ensinava a criança a pensar e a questionar. Era uma vez aulas produtivas. Aulas que faziam a criança questionar. Numa dessas aulas, o mestre solicitou para a criança que ela pensasse qual era a semelhança entre um homem e um porco. Depois de pensar bem, a criança concluiu que ambos não tem a plena consciência que são porcos. O mestre achou interessante, apesar de pessimista, a resposta daquela criança inocente. Não satisfeito perguntou qual era a diferença entre eles. A criança utilizou apenas diferenças físicas. O mestre admirou a perspicácia daquela criança. Mas não conseguiu esconder um pouco de frustração por esperar uma resposta a altura da anterior. A criança também notou isso e para ela mesma, não obteve uma resposta satisfatória.

Essa criança foi crescendo e foi se esquecendo de pensar. Foi se acostumando a viver como um acéfalo. Sem a principal característica do homem. A criança, agora não tão criança assim, estudou. Estudou, se formou, trabalhou, cresceu, namorou, enganou, mentiu, chorou, sorriu, conquistou, se exibiu. Como todas as pessoas normais fazem.

No meio da estória dessa criança, que agora cresceu, trabalhos surgiram. E o jovem, que não era mais uma criança, queria mostrar seu trabalho. Afinal, ele estudou, se formou, cresceu e agora quer ganhar dinheiro. Como todas as pessoas normais fazem. Um amigo desse jovem viu que ele queria trabalhar e ganhar dinheiro e o indicou para uma instituição para vender seu peixe. Seu produto, seu projeto.

O jovem, feliz da vida por ser indicado por alguém, foi a tal da instituição para ganhar dinheiro. Conversou com o manda-chuva que disse que podia começar a trabalhar. Mas que as questões financeiras resolvessem com o Diretor Financeiro.

Conversando com o Diretor Financeiro, o jovem fez um orçamento bastante justo. Levou em consideração que ainda não era profissional. Fez um precinho de estudante mesmo. O jovem pediu 20 moedas esterlinas, enquanto que no mercado cobrariam 50 moedas esterlinas. Mas para não perder essa oferta e para começar a construir seu perfil profissional, fez esse precinho. Porque é apenas um estudante querendo ajudar nas despesas de casa. 20 moedas esterlinas não é tão ruim assim. Tem gente que trabalha durante um mês para ganhar 3 moedas esterlinas.

Mas o Diretor Financeiro fez cara feia, chorou, esperneou. Aliás, fingiu. Usou toda sua experiência de negociante para escolher a melhor oferta para instituição – não, não. De jeito nenhum ele superfaturou as notas fiscais e os orçamentos para tirar seus honorários extras. Além de superfaturar, fez o jovenzinho, que parecia uma criança, receber apenas 12 moedas pelo seu trabalho que valia 50 moedas. O jovem ficou triste mas aceitou a proposta do Sr. Diretor Financeiro.
Saiu da sala de negociações pensando no seu mestre. Lembrou da aula do porco. E notou que a poucos segundos não sabia o quê estava diante dele. Pensou naquela resposta que deu para seu mestre. Mas os anos se passaram, e seu cérebro era cada vez menor. Sua idéias, não eram boas idéias. A única conclusão que chegou sobre a diferença entre homens e porcos é que estes se tratam como semelhantes. Ora um porco trata outro porco como um porco. Mas o homem trata outro homem como um porco.

crônica: a tristeza de um palhaço

Publicado: julho 3, 2007 em crônica

Ali na esquina tinha um grupo de crianças. Pulando, cantando, gritando, se divertindo. Crianças alegres. Crianças que não paravam de rir. O motivo de tantas gargalhadas era um senhor de cabelos brancos. Não. Cabelos brancos não. Cabelos azuis. Azuis, vermelhos e amarelos. As pessoas que passavam perto olhavam com ternura. Outras passavam sorrindo. Realmente, tinha uma aparência engraçada pra quem via de longe. Um senhor baixinho, gordinho. Um senhor branquelo. Mas não era um senhor qualquer. Era um senhor fantasiado. Sim, pois com cabelos azuis, vermelhos e amarelos não poderia ser alguém comum. O senhor tinha tinta borrada nas têmporas. Como se ele mesmo tivesse feito a maquiagem. Maquiagem? Sim, gente. Maquiagem. Maquiagem branca. Exagerada. Era um senhor com um semblante carregado. Não, não vamos mais chamar o senhor de senhor. Vamos chamá-lo de palhaço. Então, o palhaço tinha o semblante carregado. Mas uma maquiagem que radiava alegria. Um grande nariz com uma grande boca sempre sorrindo. Com grandes olhos e cheio de truques. Truques que as crianças adoravam.

Mas o que ninguém sabia era quem era o senhor. Ah, mas eu disse que ia chamá-lo de palhaço. Tá. Mas o que ninguém sabia era quem era o palhaço. Mas eu sei quem era o palhaço. Era um órfão. Não um órfão sem pai nem mãe. Sem lenço sem documento. Sem eira nem beira, nem ramo de figueira. Mas um órfão de sentimentos. De bons sentimentos. Quando jovem arrancaram-lhe toda sua alegria. Toda sua esperança e fé. Todo seu amor. Arrancaram-lhe também sua inocência. No começo o ódio foi seu aliado. Sua força para viver. Mas depois a raiva passou. Restou-lhe apenas a conformidade. A indiferença. Não se faz necessário dizer como o jovem-senhor-palhaço perdeu tudo na sua vida. É uma estória muito triste. Tão triste e tão longa que não caberia nesse espaço. E ao ler toda essa estória, não restaria uma só pessoa nesse mundo que não se acabasse em lágrimas.

Voltemos ao presente. Lá estava o palhaço. Fazendo as crianças sorrirem. Fazendo os adultos sorrirem. Lá estava o palhaço. Incapaz de sorrir verdadeiramente. Incapaz de sonhar. Lá estava o palhaço pulando e cantando. Sorrindo e fazendo os outros sorrirem. Como é triste aquele palhaço. Como é engraçado ver as pessoas não notarem a tristeza daquele palhaço. Não. Não é engraçado. É triste. Triste desse palhaço que precisa se maquiar para sorrir.

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