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O livro “Admirável Mundo Novo” foi escrito por Aldous Huxley e publicado em 1932. O autor narra um hipotético futuro onde as pessoas são pré-condicionadas biologicamente e condicionadas psicologicamente a viverem em harmonia com as leis e regras sociais, dentro de uma sociedade organizada por castas. O livro retrata a sociedade perfeita onde todos seriam conformados com sua condição social. Mais do que isso, seriam felizes, harmônicos e satisfeitos com a casta pela qual fazem parte. A Sociedade “perfeita” desse futuro criado por Huxley é mostrada através de uma viagem ao Admirável Mundo Novo.

O ano é 2540 d.C., mas para os personagens do livro é 632 d.F., ou seja, depois de Ford. Para eles, Henry Ford, criador das linhas de produção, foi “o Messias”, e eles o invocam por meio do sinal de “T”, no peito, em referência ao célebre modelo do inventor. Nessa sociedade, todos vivem sob o imperativo da felicidade e são divididos em castas: os Alfas, Betas, Gamas, Deltas e Ípsilons. As duas primeiras são compostas de indivíduos únicos, mas as restantes passam por um processo que divide seus embriões e produz cerca de oitenta pessoas iguais. Tudo isso para que, trabalhando juntos, haja um sentido de identidade entre eles.

Admirável Mundo Novo conta a história de uma jovem típica, pertencente a uma das castas altas, que, em uma crise existencial (uma falha inexplicável no sistema de produção de indivíduos), conhece uma reserva de selvagens, e, particularmente, um “selvagem” (a reserva é uma alegoria para o mundo real e os selvagens são pessoas remanescentes do mundo em que vivemos, ou em que se viveu na década de 30 – quando o livro foi publicado). Os dois personagens representam o antagonismo entre a nova e a velha sociedade.

A personagem vive em uma sociedade formada por indivíduos pré-programados genética e psicologicamente para desempenhar um papel social e gostar deste. Sem questionar ou desejar, nem mais nem menos, simplesmente ser o que lhe foi designado pelo sistema, administrador do bem-estar geral. O selvagem, por outro lado, vive em um mundo cheio dos antigos valores e costumes, dogmas, tradições e imperfeições.

Neste mundo criado por Huxley não há pais, mães ou relacionamentos duradouros. Os embriões são “montados” em linhas de produção, de acordo com sua casta. Desde o nascimento, são condicionados, seja por hipnopédia (repetição de frases durante o sono) ou outros métodos, a aceitarem a morte e tratarem o sexo como algo absolutamente trivial, para ser praticado sempre e com todos. Não possui a ética religiosa e valores morais que regem a sociedade atual. Qualquer dúvida e insegurança dos cidadãos era dissipada com o consumo da droga sem efeito colateral: o “soma”. As crianças têm educação sexual desde os mais tenros anos da vida. O conceito de família também não existe. Para a sociedade civilizada, ter um filho era um ato obsceno e impensável, ter uma crença religiosa era um ato de ignorância e de desrespeito à sociedade.

Sem dúvida, Admirável Mundo Novo faz parte da tríade distópica da literatura mundial, juntamente com 1984 de George Orwell e Laranja Mecânica de Anthony Burgess. Impossível não ver os traços de uma política totalitária que “trabalha incansavelmente” para “o bem-estar da sociedade”.

É uma maneira de criticar a substituição das pessoas por máquinas, de uma forma diferente: substituindo o lado humano, os sentimentos e emoções, por sensações pré-programadas.

Os cidadãos são condicionados a aceitar uma série de regras sociais, que são padronizados e, no entanto, continuam presos a dogmas, embora estes mudem de uma sociedade para outra, sendo atribuídos de formas diferentes: por um lado, através da educação infantil e, por outro lado, através do condicionamento hipnopédico (em outras palavras, adestramento).

Impossível não ver no Estado descrito em “O Admirável Mundo Novo” a política capitalista de Bem-Estar Social e, simultaneamente, o Estado totalitário, auto-intitulado socialista ou comunista, seu antagonista “natural”, ambos ditatoriais e avessos a qualquer nova possibilidade para a sociedade como um todo, característicos do pós-guerra.

Saltando para os dias de hoje, quase oitenta anos depois que o livro foi escrito, já assistimos à estruturação (e à desestruturação) de dois mundos, o capitalista e o socialista, ao surgimento de um terceiro mundo e à substituição destas divisões em função de uma Nova Ordem Mundial, processo chamado de Globalização.

Como criticar o “Admirável Mundo Novo” quanto à sua utilização do soma quando não estamos muito longe disso, ao utilizar um simples Prozac? Criticar a sua alienação quando nos deixamos imbecilizar pela televisão, cinema, vídeo, músicas e revistas das quais nos lembraremos por apenas uma estação? Não é a nossa sociedade tão consumista e manipuladora quanto à descrita por Huxley no início deste século? Não somos também nós, como os seus personagens fictícios, crianças grandes, brincando com brinquedos cada vez mais caros e sofisticados? Crianças que fogem dos problemas, leem revistas e assistem programas que nos dizem o que vestir, o que comprar e como agir?

No entanto, é sempre bom ressaltar também o outro lado: aquilo que ainda temos de mais precioso, algo que as pessoas do “Novo Mundo” já perderam: humanidade, espírito, liberdade. Nesse mundo, aqueles que ousam pensar diferente – ou, melhor aplicando o termo, aqueles que ousam pensar – são alvos de preconceitos e perseguições. No mundo real, as coisas já não são bem assim: aqueles que pensam diferente são até recompensadas.

O pensar é incentivado, ao menos em ALGUMA parcela da população, enquanto que no “Novo Mundo”, ele é cortado antes mesmo de a criança nascer. No “Novo Mundo”, cada pessoa é especializada como uma formiga, vivendo unicamente para exercer a profissão a que foi destinada antes de nascer e tendo sido condicionada para gostar disso. Sem dúvida, isso resolve o problema do desemprego. Mas a que preço? O preço da liberdade de escolha, da liberdade de querer ser alguém, de querer crescer na vida, ou de, simplesmente, mudar.

A vida individual, uma das coisas mais valiosas que o homem conquistou com o seu desenvolvimento evolutivo, é anulada pela vida coletiva; perde o sentido. As pessoas deixam de ser seres humanos e passam a ser máquinas superespecializadas para exercer uma determinada atividade. Isso as torna tão dependentes dos outros que elas deixam de existir sem alguém por perto. Daí vem a ansiedade por locais “cheios de gente”. Eles sentem-se seguros, protegidos, o seu instinto não foi anulado, continua ali, dando seus sinais, ainda que, de certa forma, alterado.

Por fim, mas não menos importante, é preciso ressaltar mais uma grande mensagem de Aldous Huxley: o homem ainda faz parte da Natureza. Ele não pode anulá-la, pois ela vive dentro dele próprio.

resenha: a arte da palavra

Publicado: agosto 16, 2007 em resenha

Rafael Calheiros
Resenha do livro História Universal da Eloqüência de Hélio Sodré

A palavra é uma arma acessível a qualquer homem. Independente de credo, raça, sexo ou condição social. Sua onipotência existe desde o que chamamos de história e resiste, firme e forte, até os dias atuais. Foi fundamental em momentos críticos da história conhecida e contada pelo homem, mudou rumos, criou verdades e mentiras, imortalizou deuses e heróis como enterrou vilões e covardes. Foi a palavra que informou e manipulou o homem, com o passar dos séculos. E ainda engana. É uma arma poderosa, estridente. Completo afirmando que é uma arma acessível a qualquer homem desde que o mesmo aceite o hercúleo desafio de manuseiá-la, dominá-la. Poucos se dedicam a esse árduo, mas proveitoso, trabalho. A palavra é tão poderosa que, com um simples disparo, pode destruir um ser. Aniquilar para sempre qualquer um que duvide de seu poder. Nada de quebrar ossos, deixar hematomas ou dilacerar a pele. Seu poder é maior. Invade o corpo e atinge a mente. A alma. Transforma o pobre ser, vítima do disparo, em homem-zumbi incapaz de se reerguer perante a sociedade e as futuras gerações.

Quem faz história são as pessoas que a escrevem (talvez a seu bel-prazer, já que a história é escrita pelos vencedores); que documentam os fatos. A arte da palavra faz com que conheçamos interpretações do nosso passado. Ter história. Verdadeira ou não, mas ter história. Sem a palavra escrita, documentada, o passado seria uma incógnita. E o presente, primitivo. Já que aprendemos com os erros dos nossos ancestrais para evoluir. E evoluímos, seja na ciência, espírito ou comportamento social, graças aos antepassados.

A palavra é arte, de onde deriva a literatura, outra arte. Aí entram em cena os escritores e oradores. É evidente que ao falar-se de literatura, não se pode considerar nem a fala usual, nem a escrita corriqueira. A literatura é a arte de criar beleza por meio da palavra, como diria Hélio Sodré – autor do célebre ‘História universal da eloqüência’.

Se a palavra escrita fica eternizada em livros e um grande número de pessoas pode ter acesso, a palavra falada é a mais poderosa. “O estudo dos livros é uma atividade fraca e repousada que não entusiasma, ao passo que a discussão ensina e exercita ao mesmo tempo”, disse Montaigne. A eloqüência lida com a voz e com os gestos. Por isso é a mais viva e a mais mortal das artes. A mais viva porque é palavra, voz e gesto. Quando bem usada empolga multidões. A mais mortal porque os oradores levam consigo, para o túmulo, dois dos seus requisitos primordiais: a voz e o gesto. Mas, que importa que a eloqüência é a mais mortal das artes se, quando em ação, nenhuma outra consegue sobrepujá-la?

Toda arte sugere, comunica, convida. Mas, a eloqüência impõe. O efeito das outras artes é lento, o da oratória imediato. Um livro age vagarosamente; a eloqüência, vertiginosamente. Usando mais uma vez as brilhantes palavras de Hélio Sodré: “Um livro – palavra escrita – pode gerar uma revolução. Mas a eloqüência – palavra falada – pode desencadear a revolução”. E isso porque a eloqüência não se satisfaz, apenas em expressar um sentimento ou traduzir uma idéia. Seus objetivos são maiores. Além de expressar, aspira convencer e persuadir. O orador perfeito deve reunir em si, não só as qualidades de filósofo, mas também as do poeta e as do ator. Poeta, para deleitar e comover, falando ao coração e ao sentimento. Filósofo, para instruir e convencer, falando à razão e ao entendimento. E ator, para dar vida e vigor às suas palavras.

É quase impossível não admirar um discurso eloqüente. Cometendo o sacrilégio de ‘tomar as palavras emprestadas’, exemplifico com o belo discurso de Caio Graco – notável tribuno da Roma Antiga – que antes de defender uma causa perdida, ganhou o público com sábias palavras: “Cidadãos, se sois inteligentes e honestos, não encontrareis, entre nós, um único que fale sem esperança de recompensa. Todos os oradores querem conseguir qualquer coisa. Eu próprio, que vos falo, e falo para acautelar os vossos interesses e aumentar os vossos rendimentos, também não o faço desinteressadamente. Simplesmente, não espero de vós dinheiro, mas sim atenção e aplauso!”. Só para constar, Caio Graco – jovem orador romano, em um dos seus primeiros discursos – ganhou a causa. Talvez tenha se saído muito bem por ter feito uma boa introdução. Ganhou o respeito dos concidadãos, e se sentiu a vontade no tribunal.

Para finalizar esse breve elogio à palavra, cito Victor Hugo: “Uma palavra caída de uma tribuna cria sempre raízes em alguma parte. Dizeis: não é nada, é um homem que fala. Encolheis os ombros. Espíritos de curto alcance! Dizeis que não é nada e é um futuro que germina, é um mundo que desabrocha!”

resenha: ilha das flores

Publicado: agosto 11, 2007 em resenha

Rafael Calheiros
Resenha do curta-metragem Ilha das Flores

O documentário “Ilha das Flores”, de Jorge Furtado produzido em 1989, é de uma rara profundidade que exprime toda a banalização a que foi submetida o ser humano, por mais racional que este seja. Um ácido retrato da mecânica da sociedade de consumo. Acompanhando a trajetória de um simples tomate, desde a plantação até ser jogado fora, o curta escancara o processo de geração de riqueza e as desigualdades que surgem no meio do caminho. A lamentável condição de sub-existência dos habitantes da Ilha das Flores deixa as pessoas pasmas. A idéia do curta-metragem é mostrar o absurdo desta situação. Seres humanos que, numa escala de prioridade, estão depois dos porcos. Mulheres e crianças que, num tempo determinado de cinco minutos, garantem na sobra dos porcos (que por sua vez, alimentam-se da sobra de outros seres humanos com condições financeiras de escolher o alimento) sua alimentação diária.

A obra Ilha das Flores é rica em informações reais (às vezes chega a ter um caráter didático), e ao mesmo tempo, segue a trajetória fictícia de um tomate: plantado, colhido, vendido a um supermercado, comprado por uma dona-de-casa, rejeitado na hora de fazer um molho para o almoço, jogado no lixo, levado para a Ilha das Flores, rejeitado pelos porcos, e finalmente, encontrado por uma criança com fome.

A desigualdade social e toda perversidade de um sistema são provocadas justamente por seres humanos que procuram viver em seus casulos de forma egocêntrica e egoísta, fingindo não ver a realidade da exploração do homem sobre o homem, esquecendo-se da solidariedade e afeto entre seus semelhantes. Daí a afirmação no início do curta da não-existência de Deus. Infelizmente, explorar a miséria humana faz parte desse sistema, faz parte do “progresso natural da sociedade”. Uma prova disso é que o diretor não precisava ir tão longe para ver a crueldade e a miséria do homem, bastava colocar uma câmera em sua janela de casa.

A noção de progresso é o anteparo usado pelo filme para estabelecer propositalmente uma relação insolúvel na sociedade capitalista. A capacidade criativa e o decorrente progresso são conjugados com os diversos aspectos que envolvem a vida em sociedade. O lixo é capaz de unir- e não separar como normalmente – a “parte limpa” com a “parte suja” do filme. Logo, confirma-se uma incompatibilidade entre progresso e desenvolvimento humano. O espectador sente o sabor da simples profundidade sugerida pelo filme. É uma provocação ao raciocínio social imediato, à propriedade privada, ao lucro, ao trabalho, à exploração, à relação entre progresso criativo e, conseqüentemente, tecnológico (criação e evolução estão intimamente ligados) e ao desenvolvimento social e humano. Passados quase vinte anos após a sua produção, o curta ainda é bastante atual. O documentário é narrado pelo ator Paulo José e foi aclamado pela crítica, vencendo vários prêmios.

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resenha: 1984

Publicado: agosto 7, 2007 em resenha

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Rafael Calheiros
Resenha do livro 1984 de George Orwell

 

“1984”, a magnífica obra de George Orwell, escrito em 1948, fala de um mundo dominado pelo socialismo totalitário – reflexo do período pós-guerra quando Orwell, se desiludindo cada vez mais com os rumos do “socialismo” de Stalin, escreveu o livro.

A obra retrata o mundo dividido em três grandes superestados: Eurásia, Lestásia e Oceania. Em uma ou outra aliança, esses três superestados estão em guerra permanente. O objetivo da guerra, contudo, não é vencer o inimigo nem lutar por uma causa, mas manter o poder do grupo dominante.

O enredo, sob a perspectiva da Oceania, mostra como o Estado vigia os indivíduos e mantém um sistema político cuja coesão interna é obtida não só pela opressão da Polícia do Pensamento, mas também pela construção de um idioma totalitário, a Novilíngua, que, quando estivesse completo, tornaria o pensamento das pessoas cada vez mais igual e impediria a expressão de qualquer opinião contrária ao Partido. A idéia do idioma é restringir o maior número possível das palavras, de tal forma que não existiria palavras para expressar oposição ao Partido e ao Big Brother – o Grande Irmão.

A característica principal de “1984”, talvez seja o duplipensar, que consiste basicamente em se ter duas idéias contrárias, opostas, e aceitar ambas como verdade. Essa característica fica evidente quando se conhece os três lemas do Estado: Guerra é Paz; Liberdade é Escravidão; Ignorância é Força.

O duplipensar fica ainda mais evidente quando conhecemos os nomes dos Ministérios: O Ministério da Fartura, que é encarregado de manter a fome para a prole e membros do Partido Externo, ocultando a baixa produtividade e a péssima distribuição de alimentos sob falsas estatísticas; o Ministério da Verdade, onde trabalhava o protagonista da história Winston Smith, que tem o dever de manipular fraudulentamente as notícias, levando os cidadãos à crença somente do que lhes é permitido, mudando constantemente o passado para que o Grande Irmão estivesse sempre certo; o Ministério da Paz, que se ocupa em engendrar a guerra, levantando a estima dos cidadãos com notícias sempre positivas da guerra; e o Ministério do Amor, que reprimia o sexo e estimulava o ódio entre as pessoas, para que o amor se dirigisse apenas ao Grande Irmão. O Ministério do Amor também se encarregava de capturar, torturar, punir, reeducar e vaporizar quem cometesse crimidéia através da Polícia do Pensamento. 

O objetivo do Partido era suprimir a individualidade com o propósito de destinar toda a vida dos cidadãos aos seus interesses. Para manter a população entorpecida e influenciada eram freqüentes os eventos com fachadas políticas e patrióticas. Os “Dois minutos do ódio” e as semanas especiais faziam as pessoas esquecerem suas vidas e amar apenas ao Grande Irmão. Aquele que não participasse era acusado de cometer crimidéia – ou idéias ilegais para o Partido, e, portanto um perigo à segurança nacional. O destino para os que fossem acusados de cometer crimidéia era o mesmo: ser vaporizado e virar impessoa, ou seja, o Estado apagaria todos os registros daquela pessoa como se ela nunca tivesse existido. Não tratava apenas de eliminar alguém que cometesse algum crime, mas fazer com que ela nunca tivesse nascido.

Orwell compõe com brilhantismo uma “utopia negativa” onde os cidadãos são vigiados todo o tempo em todo lugar pelas teletelas (aparelhos que transmitem e captam som e imagem) sob a liderança do Partido e do Grande Irmão. Em todos os lares dos membros do Partido, praças, ruas e locais públicos, as teletelas transmitem a ideologia do Partido. Mais do que isso, captam todos os movimentos de seus filiados.

Onipresente, o Grande Irmão é visto em cartazes espalhados por toda a Oceania. Apesar de estar sempre presente, ele jamais apareceu em público. O Grande Irmão talvez não seja uma pessoa real, pois ninguém nunca o viu. Mas o slogan do Partido “O Grande Irmão zela por ti”; seus feitos nas guerras; seu trabalho duro para melhorar a condição de vida do povo da Oceania; e sua liderança firme e constante nas propagandas do Partido, conduz o povo da Oceania a acreditar na sua presença e existência. A eficiência do Partido é maior: faz com que o povo não só acredite na existência do Grande Irmão, mas o ame e o idolatre. Em um mundo onde o Estado domina e nada é de ninguém, mas tudo é de todos, talvez, tudo que reste de privado seja alguns centímetros quadrados no cérebro.

1984 não é apenas mais um livro de política, mas uma metáfora de uma realidade que inexoravelmente estamos construindo. Para exemplificar, invasão de privacidade; avanços tecnológicos que propiciam vigilância total; destruição ou manipulação da memória histórica dos povos; e guerras para assegurar a paz já fazem parte do nosso mundo. Até onde a ciência pode atingir? E até onde um governo pode usar a tecnologia para manter a paz em seu país? A importância de se ler Orwell desperta o leitor para essas questões. Se a nossa realidade global caminhar para o mundo antevisto em 1984, o ser humano não terá nenhuma defesa.